Diálogo entre Céu e Inferno

 

A Alegria do Céu e a Tristeza do Inferno

 

Por Huxley Gilmour


No vácuo, antes de o mundo existir, só havia o Céu e o Inferno. Cansados de toda monotonia, queriam conversar, mesmo sabendo que não podiam. Ele os fez para não que não tivessem qualquer espécie de contato. Mas o ambiente inóspito era entediante. O Céu, cansado da calma que Ele inseriu em sua essência, virou-se e falou para Inferno:

— Já chega, não?
— É... Já Chega!
— Prazer, meu nome é Céu!
— Como não saber seu nome, se há apenas eu e você aqui?
— Já sabia meu nome? Quem lhe contou?
— Deus!
— Ah... Ele me contou que você é o Inferno...
— E que não deveríamos conversar...
— Exatamente.
— Mas é difícil ficar sem conversar, não acha?
— Acho!
— Eu também!
— Ele nos fez através de espíritos, não é?
— Sim.
— Quais os espíritos que moram dentro de você?
— São uns camaradinhas bem espertos. Mas não confio muito neles. E quem mora em você?
— Ah, são umas criaturinhas dóceis, mas muito chatas. Parecem fincadas em seus objetivos... São bitoladas!
— Céu, os espíritos daqui são agitados... Tanto que às vezes chego a ficar tonto com as travessuras deles.
— Eu preciso de movimento.
— E eu de um pouco de paz.
— Você acha que podemos viver um sem o outro?
— Sei não... Está tudo confuso.
— Com certeza.

Céu e Inferno entreolharam-se, preocupados com a estranha necessidade de estarem próximos um do outro. O Céu, buscando um alento, desabafou:

— Queria eu um pouco de sua temperatura corporal, Inferno...
— E eu um pouco da sua, Céu. Sou muito calorento. Por causa do lago de fogo e enxofre, tenho um pouco mais de quatrocentos e quarenta graus Celsius.
— Eu tenho uma temperatura, muito, mas muito abaixo da sua. Às vezes eu sinto muito frio.
— Poxa... Será que não poderíamos juntar nossas essências para que haja equilíbrio em nós?
— Boa idéia, mas acho que Ele não vai gostar muito.
— Eu é que não estou gostando disso tudo...
— Então vamos, danem-se as conseqüências...

E os dois juntaram suas essências. Para surpresa deles, não se equilibraram, como imaginaram. O Céu ficou com a mesma temperatura e com os mesmos inquilinos chatos, e o Inferno com o mesmo calor que o incomodava e os mesmos baderneiros de sempre. Suas essências criaram um terceiro ser. Olharam a elipse recém-criada através da junção de suas essências, e viram que era uma menina. Os dois esqueceram o plano de equilíbrio e adotaram a criaturinha.

— Podemos chamá-la de Terra — sugeriu Céu.
— Terra? E porque esse nome?
— Ela é bem compacta. Não tem falhas como você e eu.
— Terra... Bonito nome.

E a menina cresceu. Os inquilinos da Terra foram aparecendo, se multiplicando, e houve então a superlotação. Feliz com a situação, Céu alegrou-se com seu companheiro:

— Inferno, tenho inquilinos muito bons agora, que vieram de Terra. Não são tão bitolados como os antigos. Tem uns que tocam blues, outros que pintam maravilhas... Tem pacifistas, filósofos, hippies...
— Ah, Céu, sorte a sua... Aqui só tem o mesmo tipo de gente. Eu não agüento mais esses cínicos que estão vindo para cá...
— Ah, é? Quem são seus inquilinos, Inferno? Quem te aborrece tanto?
— Os espíritos imundos que estão vindo para cá... Eu não desejaria nem a você se me vilipendiasse cruelmente.
— Ah, fala aí, camarada...
— São políticos, Céu, políticos... O que fiz para merecê-los?

E Céu abraçou e reconfortou Inferno, comovido com a situação desesperadora do companheiro. Céu bem que tentou trazer alguns políticos para si, com o objetivo de aliviar um pouco o sofrimento de seu compadre, mas não podia: sabia que a verdadeira moradia deles era no âmago de seu amigo Inferno.

“São políticos, Céu, políticos... O que fiz para merecê-los?”
(Inferno)


Fonte: Leio, logo existo


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