Além do bem e do mal



“E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva” Gênesis cap. 32 vs. 30

Ambigüidade, sagacidade, habilidade de trafegar entre o sagrado e o profano são só algumas expressões que definem um dos mais polêmicos e controversos personagens da Bíblia.

Quem em sua honesta auto-avaliação, nunca teve um dia(s) de Jacó na vida?

Admirado por alguns, desprezado por outros e totalmente insignificante por aqueles que fogem de si mesmo não querendo ou não tendo a coragem de assumir um pouco que seja desse que é um rascunho bem definido de todos nós.

Um típico exemplo de como a escandalosa e indecifrável Graça de Deus pode ser projetada em personalidades nada convencionais e totalmente contraditórias as concepções elaboradas pelas cartilhas da moralidade desprovidas do sentimento de identificação com a própria natureza, equivocada quanto a imagem de si mesmo.

Só muda o endereço e o momento dos acontecimentos, mas a história alimentada por uma biografia que de inusitada passa a ser padronizada e repleta de altos e baixos, assume personalidades bem conhecidas do nosso cotidiano a começar por nós mesmos.

O que fica bem associado entre Jacó e nós, é que somos definidos e absorvidos pelas pessoas prioritariamente pelas nossas visíveis ações, ainda que o todo do contexto e do conteúdo do nosso interior seja a expressão da verdade de quem somos e de como fazemos a leitura da vida com as suas diversas dinâmicas e propostas.

Por esta razão, é que Jacó encarna bem a lição de que “o que se planta é o que se colhe”, independente da consciência ou inconsciência, boas ou más intenções com que traduzimos na prática nossas convicções.

A crise de “to be or not to be: that’s  the question” se instala de vez, quando somos visitados por um insight da benevolência Divina, é aí exatamente que entramos numa luta pelas rédeas da nossa existência, que só conseguimos equilibrar quando aceitamos o fato de que A GRAÇA está além do bem e do mal.

Mesmo depois de discernir e ser discernido pela revelação de uma experiência com a DIVINDADE inerente a qualquer mero mortal, o “to be or not to be: that’s the question” continua latente e bem presente nas nossas inclinações que agora “devem satisfação” a duas realidades com potencial de nos conduzir em caminhos de plenitude e novidade e caminhos de obscuridade.

A pergunta que não cala é: E a Graça continua como habitante do meu ser? A resposta é: Sempre!

Sempre porque ela não se decifra com códigos de ética moral, sempre porque ela escandaliza até mesmo os pudores de quem se percebe impróprio e que se sente constrangido com a decisão unilateral do Criador em re-inventar uma relação com sua criatura que era irremediável pela própria consciência.

Jacó é a representação da possibilidade de pacificação da alma a nossa disposição mesmo envolvidos em sentimentos de inadequação, rejeição e menosprezo, pois é aí que reside a GRAÇA da GRAÇA, que não imputa, mas absolve, sempre nos convidando a um relacionamento que nos conduza em escolhas de paz consigo mesmo, como conseqüência da decisão de invocá-la nos sucessos e retrocessos da vida, sabedores de que é o imerecimento mesmo que nos credencia a sermos alvo das mãos estendidas do SER que é PAI.


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