Fora do canto dos urubus não há salvação!



“Os Pássaros e os Urubus”

(Uma parábola herética de um bufão sobre a intolerância religiosa)


Muitos e muitos milênios a trás, Deus Todo-Poderoso cansou-se da vida que estava levando nos céus. Era muito monótona. As mesmas coisas de sempre, perfeitas. Os coros dos anjos que jamais desafinavam só cantavam Te Deuns e Réquiens. Eram magníficos. Mas mesmo bonito, se repetido sempre, fica monótono. Monótono, como o nome indica, significa “o mesmo tom”, que, na gíria brasileira, foi traduzido como “samba de uma nota só”.

No Céu todos andavam de maneira solene, falando baixo e curvando-se em reverências e mesuras. Deus, que tem ‘espírito brincalhão’ de criança (e não por foi isso que Ele nasceu criança?), pensou que seria muito aborrecido passar o resto da eternidade nessa monotonia. Isso sem levar em consideração que eternidade não tem resto. Resto é uma coisa que acaba. E a eternidade não acaba.

O que está para trás é do mesmo tamanho do que está para frente que, por sua vez, é do mesmo tamanho que a eternidade inteira, para confusão dos matemáticos, é uma roda imensa que gira sempre, sem nunca acabar de girar, sem nunca chegar a nenhum lugar. Aí, de repente, o menino brincalhão que estava dormindo acordou no Coração de Deus. E foi aquele rebuliço. Deus resolveu mudar tudo. Como é sabido por todos, Deus jamais faz o pior. Tudo o que Ele faz é sempre melhor. Pois Deus é Bom, Ele É Amor. Assim, o que Ele fez era muito melhor do que nos céus já existiam então desde toda a eternidade e era sua morada.

Sua primeira providência foi fazer uma faxina geral. Jogou nos porões inferiores do Universo uns livros enormes de contabilidades que, segundo, seriam usados em acertos futuros. E pôs fogo. A fogueira dos ditos livros está queimando até hoje e pode ser vista diariamente redondo e vermelho, atravessando o firmamento. É o sol. “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito”: é isso que está escrito na entrada desse lugar, muito embora o famoso poeta Dante Alighieri tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope, não via bem...

De fato, pra que livro de contabilidade onde se anotam débito e créditos se criança não faz contabilidade? Criança gosta é de brinquedo. Assim Deus sonhou com uma brinquedoteca imensa e disse: “Haja brinquedos” E foi assim que o Universo veio a existir. O Universo é a brinquedoteca de Deus a se acreditar no místico Jacob Bohme.

O que Deus fez foi colocar um pedacinho dele mesmo (Ou será “dela mesma?”) em cada coisa que criou. Deus se pôs nas flores, no arco-íris, nas nuvens, nos regatos, nos peixes, nas árvores, nas frutas, no vento, nos perfumes, nos insetos, nas estrelas, só um pedacinho. Sabe aqueles vitrais maravilhosos das catedrais, feitos com milhares de pedacinhos de vidro colorido? Nenhum pedacinho, isoladamente, é bonito. Nenhum pedacinho, isoladamente diz qualquer coisa. É preciso que todos os pedacinhos, todos diferentes uns dos outros, estejam juntos, nenhum é mais importante que o outro.

E Deus criou os pássaros, deliciosos brinquedos de asas. Símbolos da liberdade, eles voam. Símbolos da beleza, eles são de muitas cores e muitos cantos. Símbolos da paz de espírito, eles não têm ansiedades. Jesus disse que deveríamos ser como eles...

Havia pássaros de todo jeito: “amarelos canarinhos, com sete cores, as saíras, pequeninas corruíras, escandalosos bem-te-vis, delicados colibris, pintassilgos e andorinhas, tico-ticos e rolinhas, pica-paus e cardeais, pássaros pretos e pardais, negros jacus e urubus...”.

Todos lindos. Lindos por serem diferentes. Nas cores e nos cantos. Se fossem todos iguais seria um tédio! Todos amarelos? Todos verdes? Todos brancos?

Pois Deus, que é Uno e Múltiplo como o vitral da Catedral, Deus que ama as diferenças criou pássaros de todas as cores para que eles, na sua diferença de cores e de cantos, formassem um vitral vivo em que sua beleza aparecesse.

Aconteceu, entretanto, que uma cobra lisa e trocista que estava enrolada no galho de uma árvore viu assentar-se num outro galho da mesma árvore um pássaro negro conhecido pelo nome de urubu. A cobra começou com ele uma aduladora conversa mole:

“Bom dia, senhor urubu. Que lindas são as suas penas, tão negras! Confesso não haver outro pássaro que pudesse se comparar ao senhor em beleza. É certo que o seu canto deve ser a Fênix dessas florestas, a revelação plena e total da beleza divina. Imagino que Deus diz aos seus ouvidos, coisas que Ele não diz aos ouvidos de nenhum outro pássaro! Se Deus desejar falar aos mortais em linguagem de pássaro, estou certo de que o senhor será o seu porta-voz!”.

O urubu ficou encantado ao ouvir as palavras da cobra. E acreditou. Os vaidosos sempre acreditam nas palavras dos aduladores.

“É isso mesmo”, o urubu falou consigo mesmo. “Cada pássaro tem um pedacinho de Deus. Só um pedacinho. Mas eu, urubu, tenho a plenitude da beleza divina. Assim sendo, porque perder o meu tempo ouvindo o canto do sabiá, o canto do pintassilgo, o canto do canário?... O canto deles é uma nota só. O meu canto é a sinfonia inteira! E é até perigoso que eles fiquem por aí, cantando livres pelas matas e jardins. Porque pode ser que um ouvinte tolo fique gostando do seu canto e, assim, por amor à beleza pequena de uma nota, perca a beleza plena da sinfonia. É preciso que se saiba que o canto de todos os pássaros conduz ao meu canto! Para a Glória de Deus!”.

E foi assim que os urubus começaram uma operação de guerra contra os outros pássaros, sob a alegação de que o seu canto desviava os demais bichos do pleno conhecimento da beleza divina. Espalhou-se pela floresta a palavra de ordem: “todos os pássaros devem cessar o seu canto. Todos os pássaros devem cantar como os urubus. Fora do canto dos urubus não há salvação!”.

A passarinhada morreu de rir. Sabiás, pintassilgos e canários comentavam: “Os urubus devem ter enlouquecido...” E nem ligaram. Continuaram a cantar como Deus havia ordenado que cantassem.

Os urubus, enfurecidos com a arrogância e presunção dos pássaros que não reconheciam a sua superioridade, reuniram-se em concílio e tomaram uma decisão; “Se não cantam como nós, porta-vozes de Deus, cantam contra nós, cantam contra Deus. E quem canta contra Deus não tem o direito de cantar”.

Mas que passarinho pode parar de cantar o seu canto? O pedacinho de Deus que mora em cada um não descansa. Quer cantar! E eles continuaram a cantar.

Os urubus se puseram a campo em defesa da beleza divina e de sua própria beleza. Começaram a perseguir com bicadas os pássaros que se atreviam a cantar o canto que Deus lhes ensinara. Era a única forma de fazê-los calar. Alguns pássaros se calaram por medo de serem expulsos da floresta a bicadas. Chegaram mesmo a se esquecer de como era o seu canto. Mas o fato é que muitos dos que insistiram em cantar o seu próprio canto foram entregues à cobra que, como se sabe, adora comer pássaros...

O resultado foi que os pássaros de muitas cores e de muitos cantos fugiram daquela floresta sinistra. Foram em busca de outras florestas onde não houvesse urubus e onde pudessem cantar todos os seus cantos, ao mesmo tempo, e diferentes, para que assim se ouvisse a grande sinfonia!

Quanto aos urubus, ficaram sozinhos na sua floresta. Os bichos que moravam lá se mudaram, porque não aguentavam mais ouvir todo dia o mesmo canto monótono, sempre igual, sem variações, sem contraponto, sem improvisações. Quanto a Deus não é preciso dizer que floresta Ele ou Ela passou a freqüentar...