Abraão, o pai do diálogo entre as religiões

 

"Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: 'Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos'. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo." (Gênesis 14.18-20; ARA)

Abraão é um personagem bíblico honrado pelas três principais religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. É tido como sendo o "pai da fé" e também pai natural e adotivo de muitos crentes no Deus único, visto que, nele, "são benditas todas as famílias da terra" (toda a humanidade).

Os árabes julgam-se descendentes do patriarca hebreu por intermédio do seu primeiro filho, Ismael. Os judeus, através de Isaque e Jacó. E os cristãos, por adoção, uma vez que creem em Deus através do judeu Yeshua ben Yosef, ben David e ben Avraham ("Jesus filho de José, filho de Davi e filho de Abraão"), cuja genealogia encontra-se logo no início do Evangelho de Mateus.

Apesar da vinculação de Abraão ao monoteísmo, percebo nele uma figura messiânica anterior a Jesus (uma das inúmeras tipologias de Cristo e também de Israel), o qual, viajando para uma nova terra, estabelece excelentes relações de amizade com os povos que nela habitavam - os cananeus.

Na passagem bíblica citada acima, após ter Abraão derrotado os povos invasores que tinham feito prisioneiro os moradores de Sodoma, cidade perversa onde morava o seu sobrinho Ló, surge uma curiosa figura trazendo pão e vinho ao patriarca, o qual para muitos teólogos seria um ser misterioso. Trata-se, pois, de Melquisedeque ( Malki-Tsédec), cujo nome significa rei (Mélech = Malki) de justiça (Tsédec).

Há inúmeros mitos criados em torno de Melquisedeque. Sábios judeus identificaram-no como sendo Sem, um dos filhos de Noé, o qual teria se tornado contemporâneo de Abraão e vivido ainda mais do que o patriarca devido á sua extraordinária longevidade. Já a teologia cristã entende que Melquisedeque não apenas foi uma tipologia de Jesus Cristo como pode ter sido uma aparição precoce do Messias. Ou seja, uma teofania (ou cristofania). E fazem isto através de uma interpretação da anônima Epístola aos Hebreus do Novo Testamento onde o autor menciona-o como sendo alguém maior do que Abraão (Hb 7.7).

Contudo, prefiro me contentar em ver Melquisedeque como mais uma das tipologias do Messias, considerando-o como um dos inúmeros reis cananeus e que adorava a El Elyon (o "Deus Altíssimo"). Pois prefiro tentar mergulhar no ambiente dos tempos de Abraão e tentar imaginar como seria aquela terra cheia de Cidades-Reinos, com economia agropecuária, comércio entre os povos (Canaã deveria fazer parte de uma rota entre o Egito e a Mesopotâmia) e culto a diversos deuses.

Assim, El Elyon era considerado a divindade suprema dentro de panteão cananeu, tido como o criador dos céus e da terra e que, obviamente, teria criado também os outros deuses cultuados por aqueles povos. Logo, não posso descartar a hipótese de que Melquisedeque fizesse parte de um ambiente politeísta ainda que fosse sacerdote do Deus Supremo.

Lamentavelmente, as tradições monoteístas, principalmente o islamismo e o cristianismo, resolveram declarar guerra santa ao politeísmo, ao invés de compartilharem com os povos pagãos a proposta evangélica de construção do Reino de Deus aqui na Terra. Tão logo o catolicismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, no século IV da era comum, os cristãos passaram a perseguir as outras religiões, bem como os judeus e ainda aqueles irmãos considerados "hereges" que não se enquadravam na doutrina dominante da Igreja. E há historiadores que consideram as perseguições dos séculos IV e V piores do que a Inquisição, motivo pelo qual temos tão somente resquícios do que foi o mundo antigo, com templos e bibliotecas destruídos, com colunas derrubadas e estátuas mutiladas.

Igualmente, o islamismo foi extremamente radical em relação aos pagãos politeístas, condenando-os ao fogo da Geena (o "inferno") ainda que o Alcorão tenha deixado dúvidas sobre a possibilidade de salvação dos cristãos e judeus (o "povo do livro"). E há versos que chegam a ordenar uma "guerra santa" contra os incrédulos que adoram outros deuses:

" Com exceção dos idólatras com quem firmastes uma aliança e que não vos têm faltado nem têm secundado outros contra vós. Respeitai vossos compromissos para com eles até o fim do prazo. Deus ama os homens de bem. Mas quando os meses sagrados tiverem transcorrido, matai os idólatras onde quer que os encontreis e capturai-os e cercai-os e usai de emboscadas contra eles. Se se arrependerem e recitarem a oração e pagarem o tributo, então libertai-os. Deus é perdoador e misericordioso." (Sura 9.4-5; tradução de Mansour Challita) - o destaque é meu

Ainda hoje, aqui no Brasil, tem-se visto muitos grupos evangélicos promovendo atitudes de intolerância contra as religiões afro, sendo incapazes de estabelecer o diálogo. Através de "testemunhos" (ou "tristemunhos") transmitidos nas rádios e programas passados em suas emissoras de TV, palavras incitadoras de sectarismo e demonização são proferidas contra os seguidores da umbanda e do candomblé, como sendo pessoas más e que fazem "trabalhos" vingativos contra o próximo por razões de inveja ou ciúme.

Ora, mas será que entre evangélicos e praticantes das religiões afro-brasileiras só existem diferenças?

Esta semana, ao pesquisar sobre Olorum na internet, descobri uma oração num site sobre umbanda que se assemelha bastante ao que eu também falo a Deus, a quem chamo de Senhor ou de Eterno através do nome de Jesus:

" Olorum, meu Deus, criador de tudo e de todos. Poderoso é o vosso nome e grandiosa e vossa misericórdia.
Em nome de Oxalá, recorro a vós nesse momento, para pedir-lhe a benção durante meu caminhar rumo a vossa Vontade.
Que Vossa Divina Luz incida sobre tudo que criaste.
Com Vossas mãos retirem todo mal, todos os problemas e todos os perigos que estejam em meu caminhar.
Que as forças negativas que me abatem e que me entristecem, se desfaçam ao sopro de Vossas bênçãos.
Que o Vosso poder destrua todas as barreiras que impedem meu progresso rumo a Tua verdade.
E que Vossas virtudes penetrem e meu espírito dando-me paz, saúde e prosperidade.
Abra Senhor os meus caminhos, que meus passos sejam dirigidos por Vós para que não tropece em minha caminhada.
Assim seja! Salve Olorum!"
(Extraído de Estudo da Umbanda)

Pois bem. Para a tradição dos Iorubás, a qual é bem presente na Bahia, Olorum seria o dono dos céus, a divindade suprema que não tem representações, nem altares e nem sacerdotes, sendo absolutamente transcendente. Ou seja, seria o Deus Criador do Universo, Pai de todos nós. E daí a frase "KOSI OBA KAN AFI OLORUN", o que significa "Não há outro senhor senão Deus", um reconhecimento da soberania e da supremacia do Eterno, ainda que não seja nenhuma afirmação que possamos considerar como monoteísta (mesmo que muitos umbandistas digam crer num Deus só, o candomblé é inegavelmente politeísta ao considerar os orixás como deuses).

" Todo o povo yoruba acredita em um Deus universal, criador e guardião de todas as coisas, a quem, em geral denominam Olorun (O-li-orun), proprietário ou senhor do céu. Algumas vezes dão-lhe outros nomes, como Olodumare, aquele que sempre é justo, Oga-Ogo, o glorioso que é elevado, Oluwa, Senhor." (Reverendo T.J.Bowen - 1845)
 
E da mesma maneira poderíamos dizer a respeito de Allah, divindade suprema da Arábia pré-islâmica, tendo se tornado o único Deus adorado pelos árabes depois deles terem se tornado muçulmanos. Seu nome significa "O Deus" (Al-lah), sendo que, por ser o árabe uma língua semita, Lah viria da mesma origem da palavra El em hebraico, apesar de judeus e muçulmanos viverem em conflitos hoje em dia na Palestina.

Todavia, a história sobre Abraão contada pela Bíblia foi bem diferente do que muitos dos que dizem ser seus filhos fizeram (e ainda fazem) com as demais religiões e também entre si. Pois, habitando em terra estranha, onde seus moradores adoravam deuses diferentes (os "orixás" daquela época), o patriarca conviveu numa boa com seus vizinhos, dormindo em paz na sua tenda e apoiando-os contra a invasão estrangeira dos reis que teriam vindo da Mesopotâmia para guerrearem contra Canaã. E o mais interessante de tudo foi que Abraão ofertou parte de seus bens a um sacerdote dos cananeus, tendo reconhecido no Deus Supremo deles o seu El Elyon (seria como eu ir para uma terra onde só houvesse praticantes das religiões afro-brasileiras e desse o meu dízimo para um "pai-de-santo" que fosse um justo e pacífico adorador de Olorum).

Sendo assim, pra que tanta intolerância e sectarismo em relação às religiões afro-brasileiras?! Por que muitas "igrejas" e "pastores" ainda demonizam tanto as tradições culturais trazidas pelos negros escravos?

Que os cristãos brasileiros possam seguir os verdadeiros passos de Abraão e sejam verdadeiramente iluminados por Deus para que consigam compartilhar a mensagem salvadora do Evangelho com sabedoria, procurando os pontos de contato com as demais religiões ao invés de se sentirem como os exclusivos adoradores que buscam Deus.

A ilustração acima refere-se ao quadro "O Encontro de Abraão e Melquisedeque" do pintor holandês Dirck Bouts (ou Dieric Bouts, o Velho) que viveu no século XV. Acredita-se que a obra seja datada entre os anos de 1464-1467.


OBS. - Os comentários desse texto estão postados no blog do meu amigo Rodrigo P. A. Luz (Blog do Dr. Rodrigo Luz), onde ele foi publicado em primeira mão. Para comentar ou acompanhar os debates, clique no link.