Desconstruindo mitos

Comentários de Eduardo Medeiros e Rodrigo P. A. da Luz em: 
 
Desconstruindo mitos no livro de Jó


À época da escrita do livro de Jó, que aliás para mim é um dos melhores da Bíblia, a grande questão que os israelitas se deparavam era o por quê do "povo de Deus", o justo, sofrer e, muitas vezes o que não era povo de Deus, o ímpio, prosperar.

O autor de Jó então, senta para refletir sobre essa questão e nos brinda com uma obra-prima da literatura religiosa.

Os especialistas dizem até que o livro em sua versão original não constava toda a parte do meio das intermináveis discussões dos amigos de Jó e das discussões de Jó com Deus.

A história era simplesmente que Jó fiel a Deus, perde tudo mas fica firme e não blasfema e no final como recompensa Deus dá a ele tudo dobrado.

Mas essa história era muito simplista, então o autor, gênio da reflexão, insere no meio da história toda a série de conversas, debates e questionamentos do livro.

A intenção do autor era criticar a idéia de que "povo de Deus", justo, se estivesse sofrendo deveria estar em pecado contra Deus e que os ímpios quando levavam uma vida boa era apenas passageira e logo logo, Deus o puniria por ser ímpio.

A parte do meio do livro é exatamente os desdobramentos dessa reflexão.

À época do exílio de Judá, os "teológos profetas" usaram exatamente essa idéia de que o povo foi exilado por que não cumpriu o pacto da lei.

O livro também teve dificuldades para entrar no cânon judaico exatamente pelos duros questionamentos que Jó faz a Deus, cobrando-lhe uma explicação para o seu sofrimento já que ele era justo.

O livro não dá nenhuma resposta a Jó. Deus simplesmente fica mostrando a pequenez de Jó diante da sua grandeza.

A história ficou bem melhor assim, no seu formato modificado; sem essas modificações, ficaríamos privados de tão profundas reflexões.

O bem e o mal estão inseridos na dinâmica de nossas vidas e tudo está inserido em Deus. Não há explicações meritórias.


Desconstruindo mitos dos mártires da fé


O que dizermos sobre os que, por algum motivo, negaram a fé?

Fico a imaginar que, durante todo este tempo, muita gente negou a Cristo e também a fé no Deus único. Porém, temos dificuldades em considerar tais pessoas como valentes irmãos, exceto o Pedro. E, quanto à mulher de Jó, é interessante verificar que, ao final da história, é com ela que o herói da narrativa tem seus outros filhos quando a sorte lhe é restaurada.

No livro "Alma Sobrevivente: Sou Cristão Apesar da Igreja", Philip Yancey recorda os japoneses evangelizados pelos padres jesuítas que, durante o regime dos samurais, eram obrigados a negar a fé pisando sobre um quadro (o fumie de Jesus). Para nós que tivemos uma formação evangélica, pisar num quadro daqueles talvez nem seria negar a fé. Porém, para quem recebeu uma formação católica e tinha também uma formação oriental de reverenciar imagens pintadas e fotografadas de alguém (até hoje no judô se reverencia os mestres das artes marciais), pode-se entender qual o significado daquele ato.

Pois bem. Yancey fala que um certo padre, após ter visto um bando de famílias cristãs sendo mortas e torturadas pelos samurais, resolveu ele mesmo negar a fé pisando no quadro. E, com este ato, evitou que outras atrocidades fossem cometidas.

Os séculos passaram. Os jesuítas foram banidos do Japão até a era Meiji e, quando o imperador permitiu o restabelecimento dos cultos cristãos no país, em Nagazaki (cidade onde os USA explodiram a segunda bomba atômica), eis que os descendentes daquelas famílias evangelizadas lá pelos séculos XVI/XVII apresentaram-se mostrando terem de certa forma guardado a fé transmitida pelos jesuítas por quase uns duzentos anos e meio. Eram os kakure kirishitans ou "cristãos das catacumbas", os quais continuaram se reunindo secretamente junto aos túmulos neste período e acabaram misturando a fé cristã com budismo, animismo e xintoísmo.

Os cristãos reverenciavam o 'deus particular', uma trouxa de panos enrolada em volta de medalhas e estatuetas cristãs, as quais ficavam escondidas num pequeno cômodo disfarçado e altar budista" (Op cit, pág. 286).

Curioso que poucos, a exemplo de Shusaku Endo, Philip Yancey e uns teólogos heterodoxos falam positivamente sobre os kakure ou dos jesuítas apóstatas, os quais posso ver como destinatários da superabundante graça divina, heróis que não resistiram como aqueles que foram martirizados por Roma nos primeiros séculos da era comum.

Por outro lado, poucos são capazes de ver que, dentre muitos os que se entregaram ao auto-sacrifício, também estavam pessoas orgulhosas, na busca por uma santidade doentia, no desejo de ganhar uma eternidade premiada, numa egolatria ou até num auto-desprezo. Pois como bem escreveu nosso mano Paulo, "ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1Co 13.3; ARA).

O tão falado martírio de Policarpo, bispo de Esmirna, ocorrido por volta do ano 155 E.C., chega a ter uma dose de exagero e de fantasia quando se diz que o "santo" católico, cujas cinzas passaram a ser veneradas pelos devotos, teria aceitado sofrer tortura e morte afim de receber uma "coroa de imortalidade".

Acredito que, apesar da reforma, temos uma idéia ainda equivocada acerca dos supostos mártires do passado e consagrados pela história do cristianismo, os quais nem sempre foram heróis e, na prática, tornaram-se fruto de uma hagiografia que chegou a ser idolátrica (criaram até locais de peregrinação religiosa) e perversa.

Sabe-se que muita gente morreu por diversas razões e parece não ter havido consenso dentro do cristianismo sobre os sacrifícios humanos. Enquanto alguns irmãos adeptos do gnosticismo defendiam o relacionamento direto com Deus (sem a intermediação de autoridades), bem como a introspecção como um elemento-chave da experiência da fé, os intransigentes Pais da Igreja, tais como Inácio de Antioquia, Justino de Nablus, Irineu de Lyon e Tertuliano, defendiam a necessidade do martírio como o perfeito modo de testemunho. E houve também aqueles que optaram por dissimular perante as autoridades romanas e retornando corruptamente ao ministério eclesiástico.

Apesar de Jesus ter dado sua vida e, com seu exemplo, termos aprendido que de alguma maneira devemos dar as nossas vidas pelos irmãos, tal idéia não se contrapõe com o desejo de viver e de cumprirmos, se possível, todas as etapas finais do ciclo existencial: reproduzir, envelhecer e morrer. E deve ser considerado que o martírio de qualquer pessoa seria incapaz de se tornar uma garantia de remissão de pecados, porque isto significaria não depender mais da graça divina e sim de si próprio, de seu auto-esforço em suportar a tortura até a morte.

Com o tempo, o auto-sacrifício foi virando não só uma moeda de troca por supostas recompensas celestiais como também virou um instrumento proselitista em que líderes da igreja alimentavam o entusiasmo das pessoas por novas conversões como sendo um paradigma de santidade. E assim, foi-se alimentando um tipo de narcisismo beatífico, um passaporte para a glória celestial capaz de gerar os mais absurdos fanatismos em prol da instituição.

Depois que o cristianismo tornou-se a religião oficial de Roma, os católicos continuaram propagando a idealização do fanatismo auto-sacrificatório através da vida monástica e celibatária. Dentre as penitências praticadas nos monastérios estavam a renúncia ao sexo, o jejum excessivo, os castigos auto-impostos, a privação de sono e até mesmo a auto-flagelação. Tanto é que, segundo Marcário, o Egípcio (século IV), o monge perfeito seria alguém disposto a se torturar de todas as formas possíveis.