Céu ou Inferno?! A fragilidade do sermão de Billy Graham

 

 Por Rodrigo P. A. da Luz

 

Deus não quer apostas pascalianas!


Certa vez o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662), ao debater sobre a impossibilidade de provar a existência de Deus, argumentou dizendo que o homem deveria optar pela crença. Segundo o seu pensamento, se Deus não existir, o crente não sofrerá prejuízo algum quando morrer. Porém, considerando a possibilidade de Deus existir, o crente ganharia a vida eterna enquanto que o descrente perderia tudo depois da morte em tal hipótese.

Utilizando-se desta mesma lógica de Pascal, inúmeros pregadores desenvolveram argumentos bem ameaçadores nos seus discursos com a finalidade de proselitar pessoas. Ao invés de mostrarem a face bondosa de um Deus que nos ama desde a eternidade, tais "evangelistas" resolveram atrair seguidores apelando ao medo (o falacioso Argumentum ad baculum).

Neste aspecto, o pastor norte-americano William Franklin Graham Jr (mais conhecido como Billy Graham), admirado por muitos como sendo o maior pregador do século XX, também fez uso da mesma armadilha discursiva em seu aplaudido sermão "Heaven or Hell" ("Céu ou Inferno") que pode ser facilmente encontrado na internet:

"Certo dia, um agnóstico falava com um cristão. E ele disse: 'Suponha que um minuto após morrer você descubra não existir o céu'. O cristão respondeu: 'Se o céu não existisse, ainda assim teria valido a pena, em razão da alegria e da paz que tive em meu coração nessa vida cristã. Mas gostaria de lhe perguntar uma coisa. Sr. Agnóstico, suponha - apenas suponha - que você acordou e percebeu que, depois de tudo, existe realmente o inferno. Suponha que exista apenas uma chance em cem de existir o inferno. Você concederia, nesta noite, haver possivelmente uma chance em cem, de que realmente exista o inferno? Então, valeria a pena dar tudo o que você tem para escapar desse lugar chamado por Jesus de inferno'". (extraído do livro "Onde a religião termina?" do ex-frei Marcelo da Luz, pág. 111)

Penso que ao manejar estas palavras, Billy Graham não foi feliz pois demonstrou uma enorme fragilidade no seu sermão. Isto porque o argumento baseia-se nas supostas consequências negativas que os descrentes poderão sofrer caso não levantarem as mãos durante o apelo do pregador para "aceitar a Cristo", conforme costuma ocorrer no final das reuniões do evangelista. Os que não derem o assentimento às suas palavras poderão sofrer irreversíveis castigos como a perda da vida eterna, ardendo pelos séculos dos séculos nas chamas de um inferno.

Ora, alguém poderia então perguntar que deus é este que precisa intimidar as pessoas para ser crido ou obedecido? Pois, se a fé de alguém está baseada numa espécie de aposta pascaliana, não seria melhor que um deus assim nem existisse? Não seríamos muito mais felizes sabendo que podemos fazer escolhas existenciais conforme a própria consciência e nos baseando não em pregações de A, B ou C mas sim numa convicção pessoal a respeito de praticar o bem livres de qualquer ameaça?

Acontece que o Deus vivo e verdadeiro ama a todos incondicionalmente e deseja ser amado pelo que Ele é, independentemente de promessas ou bênçãos futuras oferecidas aos devotos. Seu amor sincero existe desde a eternidade dos tempos, antes da Terra e de todo o universo serem criados. Antes mesmo de sermos gerados no ventre materno, o nome de cada um de seus filhos já estava escrito no Livro de Deus e uma festa nos céus foi celebrada na ocasião do nosso nascimento sem que nada tivéssemos feito para merecer.

"Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda." (Salmo 139.13-16; ARA).

Sem dúvida que este poema bíblico conduz-nos à abundante graça divina, fonte da vida para todos os homens, salvando-nos de qualquer pecado. Mesmo da própria descrença visto que nem as trevas escurecem os olhos do Eterno.

"Se digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa." (Sl 139.11-12).

Não importa em qual abismo a pessoa se encontre, pois ela pode reconciliar-se com o seu Criador a qualquer hora. E isto não precisa ser durante o culto evangelístico de uma igreja visto que pode ocorrer dentro da nossa casa, num presídio, num prostíbulo, numa boca de fumo ou nos últimos instantes da nossa vida errante a exemplo do "bom ladrão" crucificado ao lado de Jesus (ver Lucas 23.39-43). Pois somos sempre salvos pela graça divina sem que nada possamos oferecer em troca. Nem mesmo a fé que é gerada no coração do homem também pelo favor de Deus como resultado da ação do seu Espírito em nós.

Tal como no Salmo 139, cuja autoria é atribuída ao rei David, ninguém pode esconder-se do Deus onisciente. O Eterno conhece todas as nossas motivações íntimas e sabe muito bem que uma pessoa levantou as mãos durante um "apelo" feito pelo Billy Graham devido a um falho raciocínio pascaliano e não porque o novo devoto deseja de fato conhecê-lo.

"SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto.; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda. Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir. Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?" (Sl 139.1-7).

Sim! Para onde fugiremos deste amor tão grande que nos cerca? Para qual lugar?

Então pra que resistir à maravilhosa graça de Deus? Por que continuar fugindo e se trancando em si mesmo?

Mas conhecer a Deus não requer nenhum raciocínio lógico formulado por filósofos. Deus é puro amor e quer ser compreendido nesta dimensão. Não pelo medo ou pela ameaça feita pelos pregadores.

"No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro." (1 João 4.18-19)


Assim, festejando este amor, quero encerrar minha mensagem com este maravilhoso vídeo do Asaph Borba cantando o Salmo 139.