Jesus, Igreja e homossexualidade será?

 Por Jéter Eugênio

É patético o modo como classificamos “pecados e pecadores, justos e injustos, enfim, sacralizamos e demonizamos”. 

Já o modo como Jesus lidou, e lida, com as pessoas chega soar jocoso aos ouvidos e parecer bizarro aos olhos daqueles que pretendem ser “melhores” do que a existência/bom senso permite. 

Exemplo dessa tal rotulação, quanto a quem seja melhor ou pior, é possível ser visto em Luc. 7:36-50 no caso da mulher, em casa de Simão o fariseu, que beijava os pés Cristo enquanto tentava estancar as lágrimas que lhe brotavam de uma alma “amada” por muitos homens sem ser amada por um verdadeiro homem que lhe pudesse oferecer um coração de carne ao invés de pedaços de pedra fálica ardentemente desejosa de uma relação sexual objética, ou seja, rápida, sem afeição alguma e, principalmente, numérica. 

Em tal caso vemos o típico religioso julgando ao Senhor pelo simples fato de permitir uma prostituta chorar-lhe aos pés, sendo ele próprio, Simão, um hipócrita inveterado, já que conhecia a mulher (só Deus sabe até que ponto), sem nunca haver-lhe dado uma significante oportunidade por ser muito “crente, santo, religioso ou outra bagaceira dessas”, pela conveniente covardia de não ter sua reputação manchada ou quem sabe ser mal interpretado pelos irmãos da sinagoga com quem havia estudado por toda sua vida, quer dizer, não pegava bem pra um estudioso da religião judaica se relacionar com alguém do “andar de baixo”, porém, Jesus era e é diferente, não respeita caprichos religiosos, cheios de etiqueta engessada, pré-conceituosos e estigmatizantes, que, não permitem seus confrades perceberem a alma alheia, e, se importarem com a história de um indivíduo como aquela mulher e sua dor desejosa em alterar uma situação que muitas vezes antes de haver sido efeito, poderia muito bem ter sido a causa de suas mazelas já que mulheres abandonadas a sua própria sorte e tendo que se prostituir a fim de se sustentarem, eram comuns em Israel nos dias de Cristo. 

Será que esse jeito medíocre e cruel de lidar com as pessoas não nos lembra alguém (alguns ou muitos?).

Outro caso típico é o da mulher fenícia, gentia, estranha, adoradora dos deuses da fertilidade, devassidão, intemperança e dos sacrifícios humanos, mas, que em fé pede ao Senhor e por ele é entendida, atendida e despedida com o louvor Daquele que jamais se dessensibilizou mesmo vivendo num ambiente e numa ambiência de extrema falta de sensibilidade.

 Poderia ficar enchendo linhas e mais linhas descrevendo muitos desses casos em que Jesus, que, não era humano, mas, assim se fez a fim de ser referencia máxima àqueles que desde o Édem haviam se desumanizado quando, feito buraco negro, entraram em processo de implosão egóica, porém, vou me ater a um dos casos que mais me intriga, fascina e mexe com minha “religiosidade irreligiosa”, pois, se assim não fosse jamais me permitiria ter tido as reflexões que passo a partilhar com vocês devido ao alto índice de pudor cego, malévolo e alienante que toma conta de todos aqueles que ainda não conseguiram se safar do Cérbero a guardar não os portões do Hades, mas, as estruturas basilicais e que devora milhares de almas enquanto você lê esse meu atiçar histórico-teológico-cutltural, pois, quem sabe assim, “falando de corda em casa de enforcado” consiga fazer com que alguns ao menos me odeiem (risos), pois vivemos numa época de homens-chá-de-erva-santa-maria-nem-frios-nem-quentes (mornos e causadores de asco por sua apatia) que preferem “passar de largo”, ante um moribundo, por serem sacerdotes ou levitas (religiosos em geral) amantes do conforto de sua cátedra a se embrenharem samaritanamente a um indivíduo “meio morto” à beira do perigoso caminho da existência que possui na estrada de 20 km “que descia de Jerusalém para Jericó” a devida arquetipia pra o que aqui digo, e que, por Deus, estão por um fio de serem regurgitados  por nem cheirarem e nem federem dado o nível da indiferença que atingiram.

Pois bem, por duas vezes nos evangelhos Jesus fica extremamente admirado, a primeira com a falta de fé dos judeus em Mar. 6: 6 e a segunda com a grande fé de um não judeu em Luc. 7: 9.

O grande problema da maioria das pessoas é com “o que a Biblia diz” e assim negligenciam aquilo que ela “não diz” como linguagem subjetiva, ou seja, psicoantropológica e com isso desprezam toda a estrutura/contexto de um texto fazendo do mesmo algo pobre de significados que muitas vezes estão implícitos pela natureza da própria comunicação (me refiro aqui ao universo das possibilidades da comunicação textual implícita sem fazer teologia pra defender causa alguma). 

Façamos então um breve apanhado a fim de podermos enriquecer nosso enlouquecimento (loucura do Evangelho).

A passagem onde cito um romano sendo não somente atendido por Cristo, mas, por Ele sendo extremamente elogiado, me causa profunda reflexão, pois, o fato de o centurião ser alguém que tinha afeição pelo povo judeu e que os ajudava, inclusive financeiramente, me traz algumas questões, por exemplo: sendo Jesus quem era (alguém que amava profundamente as pessoas fossem quem fossem), ele prontamente atenderia ao rogo de um “velho” da cidade de Cafarnaum, como de fato aconteceu, porém, ao aproximar-se da casa o centurião enviou-lhe “uns amigos” a fim de lhe “barrarem” a entrada devido ao nível de autoconhecimento por parte daquele homem, que, sabia que era alguém indigno, consciência esta que muito me admira e intriga.

Bom, os romanos eram descendentes da mistura de três povos, gregos, etruscos e italiotas, recebendo assim vasta influência destes povos antigos, que, no quesito sexualidade eram culturalmente homossexuais (não viam problema nas relações homofílicas como nós, e, ainda a transferiam para o campo da afetividade deística), assim sendo, os romanos se tornaram uma comunidade, onde, ser homossexual, não era nem pecado e muito menos crime. 

Paulo escrevendo à galera de Roma no capítulo primeiro, fala dessa cultura, desse jeito de ser e existir coletivo (não está falando a um sujeito, mas, a toda a nação quanto ao fato daquela “inversão” ser considerada condição pra todos, quando de fato não deveria, pois tal condição pertence ao universo do particular e complexo universo de uma parcela da população global). 

Era comum a educação ser tratada também de forma homossexual entre os romanos, de maneira que os efebos (moços de companhia) eram garotos levados, com o consentimento dos pais, a homens mais velhos para deles aprenderem sobre como se tornarem cidadãos respeitáveis, e, assim eram por eles “penetrados” a fim de que suas qualidades-características fossem, no ato do coito homofílico, perpassadas. 

Os escravos, que eram maioria no Império Romano ofereciam, dentre vários serviços, prazer sexual aos patrões, e, em muitos casos se desenvolviam relações afetivas profundas entre ambos.

Já imaginou o caso do centurião acima citado ser mais um desses, comuns na cultura romana? 

Mais complicado ainda é imaginar Jesus atendendo a um centurião homossexual. 

Pra complicar ainda mais, imagine o mestre dizendo pra multidão de pessoas ali presentes ouvirem: “nem em Israel encontrei tamanha fé”. Imaginou? Ah... me esqueci, você é “crente” demais pra imaginar tal coisa, e, Jesus é ainda mais “crente” pra ter atendido a um possível homossexual não é mesmo? Graças a Deus Jesus não é crente!

Pois bem, por mais teológico, culto, crente ou santo que você possa ser, é impossível negar tal possibilidade dada às inúmeras probabilidades culturais nesse “estudo de caso”.

O que estou fazendo é apenas é uma coerção didático/textual, na tentativa de dizer às igrejas, que muitas vezes de Igreja não possui nada além do homônimo, que Igreja é lugar de pecador, seja ele quem for e de que tipo for, pois, onde não há pecado não há graça, e, sem graça os pecadores estarão apenas re-unidos no clube da “irmandade azul” discutindo quem irão receber entre eles, e, apenas isso. 

Portanto, igrejas que segregam pessoas pelas características dos pecados que elas cometeram ou cometem já ficaram sem a graça, e, desgraçadamente laodicéicos.

Bom, passamos e muito do momento de começarmos a compreender que “todos pecamos e carecemos da glória de Deus” e que sem ela não a judeu, grego, homem, mulher, gay, hétero, crente, ateu ou o caramba, que consiga se redimir.

Não sou ativista de nenhum movimento que advoga a causa que pede “igrejas para gays” nem adepto de “políticas” disfarçadas por detrás de movimentos ideológicos que buscam (poder - controle) “igualdade” para as minorias, sou sim alguém que encontrou com a pessoa mais intrigante e apaixonante do universo, Jesus, e com Ele aprendeu a se perdoar, perdoar os outros e saber que perdão de verdade só experimenta aquele que por Ele foi perdoado. 

Sou a favor de que as igrejas aprendam que nelas deveriam se agregar gente com todos os tipos de conflitos (inclusive homossexual) e que essas pessoas precisam encontrar irmãos de verdade que os acolham e os permitam “viver seus conflitos na pacificação que só o Evangelho pode proporcionar”, pois, isso também é vida no Espírito, saber que assim como queremos ser aceitos e compreendidos em nossas mazelas, também precisamos compreender que as pessoas à nossa volta buscam a mesma oportunidade, sejam quais forem seus dilemas.

Minha oração é pra que possamos nos ver como pessoas com multidões de pecados perdoados, e, assim com percepção empática aprendermos a amar de fato ao Senhor e ao próximo como a nós mesmos, pois, quando vejo toda minha sujeira, percebo que não sou melhor que o outro. 

Muita gente boa, em conflito quanto à sexualidade, mas boa, está vivendo à beira do precipício fazendo gestão de beirada (pulo ou não pulo), enquanto os religiosos com suas teologias e igrejas os vão chutando pra dentro desse abismo fazendo desses sujeitos, socialmente diferentes, o câncer desta nossa sociedade hipócrita e moralista não percebendo que essa ambivalência é típica do ser humano caído e que precisa na comunhão com a Igreja ser recebido e tratado no Evangelho que não expulsa ninguém, mas, convida: “todo o que vier a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”, porém, infelizmente a “igreja se transformou, numa confraria de seres autômatos onde quem não se enquadra nos moldes moralistas e repressores, se quer será recebido.  


P.S. - Jéter Eugênio é nosso mano querido, parceiro e caminhante na Graça dO Caminho que não segrega nem exclui ninguém, antes, à todos convida para serem chamados e viverem como irmãos.