Graça: O caminho pra cima e o caminho pra baixo - Escolha



“Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; se é ‘concitado’ a dirigir-se acima, ninguém o faz.” Oséias cap. 11 vs. 7

Poucos textos me feriram a alma tanto quanto este, desde a primeira vez que o li. Hoje, entretanto, conversando com Adriana acerca de certos “espíritos humanos”, especialmente os bons e humildes, ela disse: “Se as pessoas mudassem de espírito, até o ar ficaria melhor”.

Então eu disse: “É claro. Leia Oséias 4: 1-4. Ela então, disse: “Recite-o pra mim”. Recitei-o. O texto diz que por causa da maldade da sociedade humana, a criação é afetada, e começa a morrer. Foi quando eu disse: “Se acontece para o mal, acontece para o bem”.

Entretanto, no ato de recitar para ela o texto, incluí um pedaço que não fazia parte da citação de Oséias 4, e que é o texto que está no cabeçalho desta minha conversa com você.

Achamos o texto e lemos: “Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; se é concitado a dirigir-se acima, ninguém o faz”.

Um pai, ou uma mãe, também poderiam, algumas vezes, dizer o mesmo: “Porque os meus filhos são inclinados a desviarem-se de nós; se concitados a dirigirem-se acima, ninguém o faz”.

Ou seja: a aplicabilidade de tal “inclinação do coração” frente à certeza do amor incondicional, paradoxalmente, na alma não-consciente e rasa, gera apenas um espírito de inclinação contrária ao amor de Deus.

Digo isto apenas porque o povo de Oséias sempre soube que Deus os amava, visto que o profeta que Ele escolheu para trazer Sua mensagem, teve, ele mesmo, que ser a mensagem; pois teve que amar e casar com uma mulher que o traía com todos os homens, assim como Israel traía o Senhor com as divindades de pau e pedra.

Ora, essa fuga de Deus é fuga do amor; e é, também, fuga de toda a perspectiva crescimento, pois não há meio de se crescer, e de tal crescimento tirar algum proveito, se o amor não for a seiva desse crescimento. Paulo disse que sem amor, por exemplo, o conhecimento apenas “incha”, mas que somente o amor edifica, constrói, e faz crescer aquilo que é eterno em nós.

O contrário disso, que é a fuga do amor e do crescimento nele, produz sempre a “Síndrome de Peter Pan Espiritual”. A pessoa acha que é de Deus, e, nesse mesmo momento, começa a se inclinar para longe Dele; pois é melhor pensar que se é de Deus de modo “marcado como gado”, do que ser de Deus porque nosso ser é e cresce em Deus.

Estranhamente, qualquer “certeza jactante” acerca de se ser “povo de Deus”, produz essa tendência a se “inclinar” para longe de Deus, posto que a jactância dessa “gloria” já significa o próprio afastamento de Deus; pois, só se jacta de “algo” quem acha que possui a coisa ou por ela é possuído (até mesmo quando a “coisa” é “Deus”); e isto numa perspectiva de “status”, e não de amizade e relacionalidade com o Criador e Pai.

Nesse ponto o ser se esquizofreniza. Sim, confessa-se de Deus, mas odeia a idéia de crescer, de seguir acima, visto que tal implica em entrega, e permanente sondagem do coração e seus múltiplos intrincamentos e entroncamentos. Aqui é quando “ser povo de Deus” mata a possibilidade de um continuo crescimento, aceitando a vocação, o chamado, o eterno concitamento divino para que o ser vá “para cima”.

Toda a profecia de Oséias trata acerca de como o amor incondicional de Deus, expresso pelo “profeta-corno”, mas que seguia sendo bom e misericordioso com Gômer, uma goma de mulher, e que ilustrava Israel, a puta, adultera, amada de Deus, assim como Gômer era amada por seu marido-profeta.

Na existência cotidiana é o mesmo que acontece. Pessoas boas, geralmente são abusadas. Os que se esforçam pelo que é bom, acabam carregando todas as responsabilidades. Os que amam incondicionalmente, sempre são incondicionalmente provocados em seu amor. Pois quem diz crer em Graça, esse tem que provar e praticar a Graça recebida nas relações horizontais, nas quais Deus freqüentemente nos põe “no lugar Dele”, no que tange ao exercício do perdão.

Assim, a salvação de Oséias, de Gômer e de Israel, estava em que Oséias perdoasse a mulher que contra ele adulterava por mero prazer. Mas se Gômer não se convertesse, ainda que incondicionalmente amada, provaria, por suas próprias mãos, todas as conseqüências de seus atos.

“Oséias nunca me deixará”, pensava ela enquanto se divertia em traições!

E, por tal certeza de amor contra ela mesma, ela se inclinava para longe do verdadeiro amor, e concitada a ir para cima, para um outro piso de existência, ela, porém, apenas se abismava mais.

Desse modo, a percepção leviana da Graça de Deus, ao invés de curar a alma, pode colocar a pessoa na falsa idéia de que crer que Deus nos ama, isso é algo que em si mesmo, e nos poupa de ter que amar com fidelidade a quem nos ama.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos”, disse Jesus, para então acrescentar que esse amor por Deus só pode ser visto como “amor de uns pelos outros”.

Estou escrevendo isto porque depois de ficar quatro anos, aqui no site, tentando tirar “neuroses e paranóias da cabeça de crentes”, creio que chegou a “Hora” de dizer que a grande tentação agora é um “crer-mal” no amor de Deus; e, assim, ao invés de aceitarmos o chamado “para cima”, nos ponhamos no caminho de Gômer, a qual, confiada no amor de Deus em Oséias, quanto mais amada, mais atolada ficava no caminho de baixo.

A Graça nos acompanha até o abismo, qualquer abismo, mas não deseja fazer sua residência na ambiência espiritualmente cínica de quem diz crer, mas nunca aceita o convite para crescer. Sim, como disse Pedro, “crescer na Graça e no conhecimento” de Deus.

“Meu povo perece por falta de conhecimento”, disse Deus por Oséias. A questão é que “conhecimento de Deus”, conforme Jesus e a Palavra, não é “informação” acerca de Deus, o que é estultícia do ponto de vista da Palavra revelada.

Conhecimento de Deus, conforme a revelação, é sempre conhecimento “experiencial”; portanto, é conhecimento na Graça que nos converte pelo amor divino.

Desse modo, todo verdadeiro conhecimento de Deus em amor e graça, nunca nos deixa contentes no caminho estático, porém, célere, na direção do buraco da existência. Ao contrário, o verdadeiro conhecimento de Deus muda o ser, e o leva à vontade da fidelidade para com o amor de Deus e para com o próximo, em amor.

Pense nisto: A GRAÇA DE DEUS NÃO É A GRAXA DE DEUS!


Caio