Engenharia Falida


Como vimos no artigo anterior, a Igreja neotestamentária era basicamente um movimento assessorado pelos apóstolos, mas liderado por “leigos” que podiam iniciar e pastorear novas comunidades fora de Jerusalém, até os confins da terra.

O princípio ativo da Igreja neotestamentária era a força centrífuga (que afasta do centro), versus a força centrípeta (que atrai para o centro). A Ekklesia bíblica era uma rede de comunidades caseiras, simples, descentralizadas e ágeis, que se espalhavam no Império de forma “viral” (exponencial e descontroladamente). Do ponto de vista do institucionalismo greco-romano, a Igreja era totalmente desorganizada: foi concebida em meio a um “caos divino” …

… até que o homem decidiu organizá-la.

Institucionalismo, por definição, é uma ênfase exagerada na organização em detrimento de outros aspectos da fé cristã (como a espontaneidade carismática e a prática do sacerdócio universal, por exemplo). As organizações religiosas contemporâneas são fruto de um processo gradual em que certos processos orgânicos de vida e crescimento da Igreja primitiva foram substituídos por sistemas centralizadores de governo, com seus quartéis-generais, suas hierarquias piramidais e seus burocráticos estatutos e sistemas de ordenação.

Peça para uma mente institucionalizada desenhar um cavalo de corrida e o resultado certamente será um camelo. O camelo é um cavalo de corrida produzido pela burocracia: aquilo que a princípio foi projetado para ser veloz, musculoso, ágil e bonito se torna lento, feio, desengonçado e cheio de pelancas. Assim como no governo federal, certos sistemas eclesiásticos têm o poder de transformar cavalos em camelos. A burocracia religiosa tornou a Ekklesia mais gorda, pesada, pelancuda, lenta e ineficiente.

Apesar disso, muitos hoje em dia ainda entendem que unificar a Igreja sob uma determinada franquia institucional, instituindo sistemas de governo centralizados para supervisioná-la, é o melhor remédio contra a heresia e a divisão. Mas será?

 

Engenharia falida


Quando vivia em Washington DC, na primeira metade desta década, observei muitas vezes a presença discreta de corujas feitas de madeira ou de plástico no telhado de alguns edifícios comerciais daquela área. A intenção parecia ser assustar as pombas que se aglomeravam nestes locais, evitando assim que os carros de seus clientes e o estacionamento ficassem cobertos com excremento de pomba.

Acontece que, na maioria dos casos, esta tática não funcionava. Era muito comum ver estas mesmas corujas (que de longe até pareciam ser de verdade) todas sujas de cocô e rodeadas pelas mesmas pombas que deveriam assustar. As pombas sabiam que a coruja não era de verdade (!!!). Aparentemente, eram mais inteligentes do que os autores da idéia. Podemos observar processos semelhantes na história da Igreja.

Dois mil anos de história nos ensinam que, se as rígidas estruturas eclesiásticas das instituições religiosas existem em função de proteger a Igreja da heresia e da dissensão, os emaranhados institucionais são somente mais uma coruja que se amigou com as pombas, ou somente mais um espantalho que perdeu o respeito dos corvos.

No tocante à heresia, basta analisar as denominações mais tradicionais aqui dos EUA – como certas convenções das igrejas Presbiteriana, Anglicana, Batista e Metodista (atuais criadouros do neoliberalismo teológico) – para entender que o institucionalismo não é e nunca foi antibiótico para conter a heresia. Muito pelo contrário, sistemas centralizados de poder facilitam a difusão de heresias, pois sujeitam a Igreja às opiniões e decisões de uma poderosa minoria.

Na questão da unidade, já deveríamos também ter aprendido que se uma pessoa não pode ser convencida de sua heresia ou obstinação por meio de um relacionamento sólido de amor, serviço e sujeição mútuos, certamente não o será por mecânicos vínculos institucionais. As inúmeras batistinhas, presbiterianazinhas e assembleiazinhas – filhotes desgarrados da denominação mãe – que povoam os horizontes do evangelicalismo brasileiro atual são a prova cabal de que tais sistemas de controle não servem para unir a Igreja, somente elevam nossas divisões a um nível jurídico.

Se formos sinceros, reconheceremos que tudo o que estes sistemas de governo centralizado fazem, com suas hierarquias piramidais e suas patentes eclesiásticas, é criar um ambiente propício à politicagem e ao espírito de divisão ao prover uma plataforma para disputas de poder.

 

Conclusão


Do ponto de vista eclesiológico, o protestantismo institucionalizado mais se parece ao catolicismo medieval do que com a Igreja neotestamentária. A Ekklesia bíblica era composta por redes informais de cooperação e fraternidade entre comunidades locais soberanas. Nestas redes, apóstolos assessoravam um colegiado de presbíteros locais, iguais entre si, que se submetiam mutuamente e supervisionavam um grupo de santos atuantes no ministério. Curiosamente, a única referência direta a um “bispo primaz” nas Escrituras é negativa, sobre um tal de Diótrefes que adorava ter a primazia entre os irmãos (3 Jo 1:9).

Jesus condenou duramente os sistemas de governo piramidais de seu tempo, porque eles atraem pessoas com sede de poder. Por esta razão, pirâmides e patentes eclesiásticas simplesmente não existiam na Igreja neotestamentária. Assim, certos sistemas de controle e centralização são tão antibíblicos quanto as heresias que eles se propõem a combater.

Devemos reconhecer que, por sua infinita graça, Deus ainda usa a Igreja que se encontra em meio à parafernália institucional, mas igualmente devemos saber que muitas destas organizações religiosas são como salsichas: enquanto você não sabe como são feitas, pode até desfrutar o sabor, mas uma vez que descobre seu processo de fabricação, elas passam a lhe dar asco. E, em uma era em que a informação viaja na velocidade da luz, mais e mais pessoas estão com asco daquilo que o institucionalismo cristão chama de Igreja.

A exemplo das pombas mencionadas acima, Satanás não teme estruturas de plástico ou de madeira, somente um cristianismo de carne e osso. Dispositivos institucionais não têm o poder de quebrantar o coração humano e produzir a sujeição sã e bíblica; somente o Espírito Santo pode fazê-lo por meio de vínculos genuínos e profundos, em amor sacrificial.

Controle e poder são antagônicos ao crescimento orgânico e saudável da Igreja. Estes são conceitos que não podem ser combinados e o Espírito nos confronta, em nossos dias, com a revelação de que deveremos decidir qual dos dois caminhos iremos seguir.