A arte de convencer

 Por Cleiton Heredia

Quando entramos numa discussão honesta o objetivo primário é defender a razão, e através da argumentação fazer com que o oponente tenha condições de distinguir o verdadeiro do falso a partir do nosso ponto de vista. O debate chegará ao fim quando a argumentação de uma das partes convencer a outra, ou quando ambas chegarem a um consenso. Diz-se que da discussão imparcial nasce a luz.

Contudo, quanto mais prolongada e acalorada a controvérsia se torna, mais para o esquecimento é lançado o objetivo inicial de busca sincera pelo entendimento da verdade, e mais vazão se dá ao espírito de competição inato ao ser humano, que impelirá os oponentes a perseguir, custe o que custar, a vitória sobre o adversário intelectual.

Quando a coisa chega a esse ponto a desonestidade passa a governar os pensamentos e a língua dos que procuram fazer com que sua afirmação inicial, ainda que falsa, sobrepuje a do oponente, ainda que verdadeira.

Arthur Schopenhauer diz que esse estado psíquico se origina na “maldade natural do gênero humano. Se ela não existisse, se fôssemos inteiramente honestos, em todo debate visaríamos apenas a trazer a verdade à luz, sem sequer nos preocuparmos se ela corresponde à opinião apresentada de início por nós ou à alheia: seria totalmente indiferente ou, pelo menos, totalmente secundário...” mas “aquele que disputa, de maneira geral, não luta pela verdade, mas em defesa de sua própria tese”.

Para piorar a situação, o filósofo alemão afirma que numa disputa dessa natureza “quem sai vencedor deve-o frequentemente muito menos à exatidão da sua capacidade de julgar a verdade segundo sua própria tese do que à esperteza e à habilidade com que a defendeu”.

E, como a habilidade de convencer é um dom natural concedido a poucos, os quais, graças a essa dádiva, costumam reter o poder, os homens se deixam governar mais pela astúcia do que pela razão.