As Patologias Crônicas das Igrejas Institucionalizadas – Parte 3

 Por Marcio S. da Rocha


As Igrejas em Células


Outra tentativa recente de renovar a Igreja com base na capacidade intelectual humana tem sido as igrejas em células. A organização dessas igrejas é fundamentada basicamente em uma abordagem de adoração tipo “duas asas” – as reuniões das células (grupos pequenos) semanais, geralmente nas casas de irmãos, e uma reunião de celebração dominical, feita num edifício alugado ou próprio da instituição.

As reuniões nos lares são chamadas de vários nomes, dependendo da igreja (células, grupos pequenos, reuniões nos lares, grupos familiares, grupos de vida, etc.). Essas reuniões são designadas para comunhão, oração, ministração e evangelização. As reuniões maiores são destinadas a pregação pastoral, louvor coletivo e reunião geral.
Há, certamente, algo louvável nas igrejas em células. Sua ênfase em cultivar relacionamentos próximos e no pastoreio mútuo está em perfeita harmonia com o tipo de igreja que vemos ao ler o Novo Testamento. O seu problema está na sua estrutura de liderança.

 
Lamentávelmente, as igrejas em células continuaram com o sistema clerical (pastor e “staff”) anti-neotestamentário completamente inalterado. Nelas há uma pesada estrutura hierárquica de liderança que realmente controla a comunidade, a exemplo de outros tipos de igreja.

As pessoas da igreja (os "leigos") experimentam no meio da semana um gostinho da vida orgânica da Igreja nas reuniões nos lares, porém, os pastores, por meio de uma hierarquia altamente organizada de-cima-para-baixo, controlam as reuniões e as direcionam de acordo com suas visões pessoais. É bem comum que o líder de célula tenha a obrigação de discutir com o grupo no lar o sermão pregado pelo pastor no último domingo. A célula nada mais é do que uma extensão da visão do pastor.

Enquanto o modelo de igreja em células impressiona como estrutura organizacional, ele não bate com a livre expressão orgânica de uma igreja que está sob a direção direta de Jesus Cristo. O domínio pastoral e a visão institucional que corre nas veias das igrejas em células violam o princípio fundamental da igreja cristã: que a Igreja é um corpo – um organismo feito de vários indivíduos que estão sob somente uma cabeça – Cristo, e não é uma corporação humana – uma “pessoa jurídica”. A visão “empresarial” que os pastores das igrejas em células possuem faz com que surja uma verdadeira “numerolatria” na comunidade, onde o crescimento quantitativo (geralmente anunciado e comemorado nas grandes reuniões) é venerado e aplaudido. Juntamente com isto, e por causa de estrutura existente, vem a necessidade de dinheiro.

Tenho recebido informações de que, paradoxalmente, as células, nas igrejas em células, não funcionam muito bem. Poucos são os membros dessas igrejas que participam das células durante a semana. Conceitualmente, as igrejas em células não passam de organizações independentes (não denominacionais), fortemente institucionalizadas, com uma estrutura de liderança altamente hierarquizada, onde menos da metade dos seus membros se reúne durante a semana em grupos menores nos lares.

Dizendo de modo claro, a simples adição de reuniões nos lares a um sistema de domínio clerical não é capaz de restaurar a Igreja do Senhor à sua expressão original. Repito, a Igreja não é uma organização institucional. Ela não é operacionada na base da cadeia-de-comando. Ela é um ser vivo, e, como todo ser vivo, se ela for plantada e equipada segundo o modelo encontrado no Novo Testamento, e deixada livre para crescer, ela encontrará e assumirá sua expressão e forma natural. Enquanto ela for controlada, dominada e direcionada por estruturas de liderança do tipo hierárquico, jamais descobrirá nem assumirá sua natureza orgânica. E jamais gozará da benção de ser Igreja, no seu pleno chamado e significado.