Trapalhadas ante-nicenas: uma retrospectiva histórica da Ceia do Senhor



Tenho grande admiração pelos pais ante-nicenos. A fibra moral, a sinceridade e dedicação ao Senhor que encontramos nos registros históricos acerca destes homens são notórias. Alguns serviram ao Senhor até o ponto de martírio, e sem dúvida devemos muito a eles na preservação e na transmissão de vários aspectos de nossa fé.

Temos que reconhecer, no entanto, que igualmente devemos a eles algumas distorções de conceitos e práticas bíblicas que se propagaram na era ante-nicena e que, posteriormente, acabaram sendo transformadas em doutrina pelo catolicismo romano. As crendices ante-nicenas a respeito da Ceia do Senhor são, sem dúvida, um grande exemplo disso.

Como vimos anteriormente, já na segunda metade do século II encontramos registros de que os cristãos começaram a crer que o pão e o vinho, após serem consagrados por meio de oração, se transformavam literalmente no corpo e no sangue do Senhor Jesus por meio de um processo místico de transmutação (ou transubstanciação). A partir deste momento, o pão e o vinho não eram mais elementos comuns mas, de acordo com os pais ante-nicenos, eram a Eucaristia (que quer dizer “ação de graças”). Esse sem dúvida foi o fator que abriu caminho para que a Ceia deixasse de ser um banquete familiar para se tornar um ritual solene e litúrgico. À medida que o misticismo em torno do pão e do vinho aumentava, a Ceia do Senhor diminuía de tamanho no intuito de evitar sua profanação.

Os elementos da Eucaristia adquiriam atributos sagrados em si mesmos e todo tipo de superstição e fanatismo se originava em torno da Ceia do Senhor. Tertuliano, por exemplo, dizia que se entristecia a ponto de “sentir dores” sempre que o vinho ou um pedaço de pão acidentalmente caiam no chão. Os elementos da Eucaristia se tornaram tão sagrados que seu depositário era tratado como se fosse literalmente a urna onde jazia o Corpo de Cristo. Cipriano, por exemplo, nos conta de uma mulher que tentava tocar a caixa que continha “o sacramento da Eucaristia” com “mãos impuras”, quando foi impedida por labaredas de fogo que supostamente subiram da caixa. Não demorou muito para que a mesa que continha os elementos da Eucaristia fosse vista também como um objeto sagrado em si mesmo: no final do século II, “a mesa santa” ou “mesa bendita” já era reverenciada como uma espécie de altar.

Para o cristão ante-niceno, a Eucaristia era literalmente o meio pelo qual Cristo tinha comunhão com sua Igreja. Abster-se da Eucaristia era abster-se da comunhão e do Corpo de Cristo. Cipriano chamava o cálice de vinho de “o cálice da salvação” e expressa sua preocupação com aqueles que, por algum motivo, se abstinham de tomar a Eucaristia e se “separavam do Corpo do Senhor” a ponto de distanciar-se da salvação.

A Eucaristia passou a ser vista também como um meio pelo qual compartilhamos da imortalidade de Cristo e uma espécie de vitamina espiritual. Cipriano nos relata que alguns cristãos bebiam o cálice do sangue do Senhor diariamente para serem fortalecidos e serem capazes de derramarem seu próprio sangue por Cristo.

Influenciados pela cultura pagã de seu tempo, os cristãos ante-nicenos começaram a ver a Eucaristia como um sacrifício a ser continuamente oferecido pela Igreja. O Didaque, um dos documentos apóscrifos mais antigos da História da Igreja (80 d.C. – 140 d.C.), já descreve a Ceia como uma espécie de “sacrifício espiritual”, o que nos mostra que esta distorção já havia entrado na Igreja no início do século II. Por volta do ano 180 d.C., Irineu já ensinava que a Eucaristia era “a oblação do novo Pacto”, incenso oferecido a Deus pela Igreja em todo o mundo. Cipriano exorta os cristãos a rejeitarem os sacrifícios pagãos de seu tempo e tomarem o Corpo do Senhor em sacrifício.

Um sacrifício só pode ser oferecido por um sacerdote. Surge então a idéia de que os elementos da Eucaristia deveriam ser consagrados pelo “presidente da congregação” primeiro, e só depois distribuídos pelos diáconos aos demais membros do Corpo de Cristo.

Conclusão

Em meio ao fanatismo medieval em torno da “Eucaristia”, a Reforma Protestante nos recordou que Cristo foi sacrificado uma só vez pelos pecados da humanidade e que, portanto, a Ceia do Senhor não é uma “oblação” (Hebreus 9:26). Muitos protestantes, porém, apesar de não confessarem a transubstanciação doutrinariamente, na prática ainda perpetuam certas práticas que derivam do conceito.

Na maioria das igrejas hoje, a “Santa Ceia” é vista como um sacramento que obrigatoriamente necessita ser ministrado por um “sacerdote” – um clérigo profissional – para ser validada. Séculos de tradição eclesiológica acumulada transformaram a Ceia em um ritual tão sagrado que, na mente das pessoas, tomá-la pode ser algo perigoso. Celebrá-la como os primeiros discípulos nos dias atuais (em um banquete literal), equivale a profanar a “bendita mesa” e cometer um “sacrilégio”.

A Ceia do Senhor foi concebida como uma simples refeição entre discípulos. Era era um banquete que simbolizava uma aliança. É um ato profético, composto por elementos comuns que apontam para uma realidade espiritual, mas que não são a realidade espiritual em si mesmos. O aspecto místico da Ceia não está no pão e no vinho literalmente, mas na profecia que eles proclamam – tanto quanto a água do batismo que não limpa pecados, mas de maneira tangível aponta para uma realidade espiritual.

A Ceia não é um banquete como qualquer outro, por causa daquilo que representa, mas para nos aprofundarmos na revelação embutida nesta ordenança, devemos nos desfazer de todo o misticismo e superstição que herdamos de “Mãe Roma” e começar a vê-la novamente como um evento comunal, assim como faziam os primeiros discípulos.

Assim como a Bíblia no século XVI, o pão e o vinho necessitam sair das mãos do clero e ser “desembrulhados” de toda a roupagem mística e supersticiosa que a tradição eclesiástica lhes agregou, voltando a ser manuseados com intimidade pelas pessoas, sem medo, sem superstições, em um espírito de alegria e gratidão.

Continua na parte 4.