Não Creio em Milagres!

No inicio e durante muito tempo, na minha caminhada cristã, acreditei que por ser “filho” de Deus, tinha uma super proteção divina.
Não saía de casa, para qualquer lugar, sem antes, fazer uma oração a Deus, pedindo por uma proteção.

Inclusive, faço uma confissão: Na minha adolescência, ávido para “curtir” nas baladas da vida, perdi o interesse religioso, não tinha mais vontade nenhuma de ir á igreja.
Comecei achar os cultos, muito chato, mas, não tinha coragem, aliás, para ser mais exato, tinha medo, de sair da igreja. Acreditava que, saindo da igreja, perderia a proteção divina, ou pior, seria alvo do “castigo divino”.

Deixaria de ter bênçãos, para ganhar maldições.
Resultado; passei daquele amor entusiasmado e esfuziante a Deus, para servi-lo por medo e interesse.
Lembro-me bem, daquele dia, quando decidi sair da igreja, para andar com meus amigos do “mundo”. Com medo de Deus, gerado pela religiosidade evangélica, continuei orando a Deus por proteção.

Hoje, vejo como era engraçado. Saindo para farrear, beber e zuar, mas, o tempo todo, na minha mente, persistia a neurose evangélica; “Cuidado menino por onde andas e o que fazes, Deus esta vendo tudo e vai te castigar”. Lembro-me que, não poucas vezes, orei de dentro da balada: “Oh Deus, estou zuando um pouco aqui, mas não me deixe sofrer nenhum acidente. Proteja e livra-me de quaisquer imprevistos”.

Hoje, mais maduro e consciente, tenho poucas certezas, algumas percepções e muitas dúvidas. Neste texto, passo a escrever essas percepções e dúvidas, deixando de lado as certezas. Pois acredito, que a Fé anda de mãos dadas com a dúvida. Como disse um poeta; “Na casa das certezas, não há espaço para a Fé”. Não vejo Deus, e é por isso que tenho Fé Nele. Se visse, não precisaria de Fé.

Eis algumas das percepções ao longo da minha trajetória na Fé:

A maioria dos evangélicos serve a Deus por interesse.

Como moedas de troca, barganham com Deus.
As orações na maioria das vezes, não passam de pedidos com promessas e/ou sacrifícios com petições, do tipo:“Deus, se o Senhor me der isso, eu vou à igreja”. “Deus, estou ofertando na sua casa, me de aquela benção”. Por isso é que existem essas campanhas de oração e de jejum infindáveis.
“Para arrancar de Deus uma benção”. “Tomar posse da vitória”.Daí o jargão religioso: “A oração da fé move o braço de Deus”.

Se na era medieval, também chamada era das trevas, a igreja manipulava através do medo, hoje ela manipula através de promessas de bênçãos.
Eu tenho pena das pessoas que vão à igreja e acreditam (como eu já acreditei) que por orarem vão conseguir antecipar os percalços da vida e controlar o futuro. Inclusive, a vida só tem graça, porque não sabemos o que há de nos sobrevir amanhã. Passamos a ter uma vida com mais qualidade, quando nos tornamos consciente que ela é breve.
Não adianta ir ao culto, pensando que, se fizer tudo certinho, nossa vida vai ser ou se tornar um mar de rosas.
Alice, o pais das maravilhas, só existe em contos de fadas.

Precisamos ter Fé, isto não no sentido que o senso comum evangélico definiu a palavra Fé. Pois quando se diz; “Fé”, os crentes associam a vitória, poder, livramento e milagres. Mas na bíblia, antes de tudo, a palavra Fé esta ligada ao sofrimento.
Não precisamos de ter Fé no milagre e vitória, mas somos convocados a acreditar e servir a Deus, mesmo quando tudo sair errado, quando estamos imersos no sofrimento.

Não, não, não deixei de acreditar que Deus pode intervir.
Deus pode tudo.
A discussão aqui é outra.Esta fundamentada na seguinte pergunta:
Como Deus organizou a nossa existência?:

Eu não acredito que Deus, a todo instante, todos os dias, intervém em nossa realidade com milagres.
Ao contrário, ao nos dar a liberdade, Deus criou um mundo de imprevisibilidade, de acaso mesmo.
Você acha que por eu acreditar em acaso, virei ateu?
Pois leia você mesmo isto na bíblia:

“Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.”

“Voltei-me, e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem tampouco dos sábios o pão, nem tampouco dos prudentes as riquezas, nem tampouco dos entendidos o favor, mas que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos.”

“Que também o homem não sabe o seu tempo; assim como os peixes que se pescam com a rede maligna, e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enlaçam também os filhos dos homens no mau tempo, quando cai de repente sobre eles.” (Eclesiates 9 v 2, 11 – 12)

Não consigo acreditar num “deus” que, protege um crente de assalto, que blinda outro com emprego, carro e casa, mas não protege bilhões de crianças da AIDS, fome, guerras e pedofilias. Afinal, se Deus fosse realmente proteger alguém, porventura essas, não seriam as criançinhas? Não são delas que a bíblia diz: “Dos tais são o Reino de Deus”?

Não consigo digerir a idéia de que, num acidente aéreo que matou 300 pessoas, e, portanto, são 300 famílias que choraram pela perda, apenas uma se salvou, porque Deus interveio. Então por que ele não salvou as 300?

Não excluo a possibilidade de milagre, mas passei acreditar em acaso.

Muitos – para não falar a maioria – dos testemunhos de “milagres” relatados nas igrejas evangélicas, não passam de mero acaso, de sorte mesmo. Concernente a curas, acredito – além é claro, de que Deus pode curar – em processos naturais de cura, produzidos pelo próprio organismo.
Mais os crentes ávidos, para constatarem que Deus ainda faz milagres, no menor sinal de favorecimento, alardeiam que ocorreu o sobrenatural.

O carro de uma pessoa tombou, ela conseguiu sobreviver, mais ficou paraplégica, logo eles afirmam que foi uma intervenção de Deus.
A pergunta que não quer calar: “Se Deus livrou aquela pessoa da morte, porque não fez o serviço completo? Se pode livrar da morte, também não podia livrar da cadeira de rodas? Então porque não o fez? Ah já sei, foi para cumprir um propósito divino, não é mesmo?! Deixou a pessoa para o resto da vida inválida, mais foi para um bem maior? Desculpem, mais não acredito nisso, já acreditei, mas hoje, isso não faz o menor sentido.

Já sei você vai usar a bíblia para provar que estou errado, não é mesmo? Lamento te informar, mais qualquer teoria – isto inclui a bíblia – precisa estar fundamentada na pratica da vida humana.
Pegar alguns textos da bíblia, que falam de promessas de livramentos para o justo e aplicar a nossa existência, prometendo que a vida do crente vai ser um mar de rosa, num mundo em que acidentes mortes e tragédias sobrevém a todos – inclusive aos crentes – é irreal e alucinação.

Vale lembrar que, é muito fácil falar da dor alheia, o difícil é falar em meio a sua própria dor.
Afirmar que os que sofreram com as enchentes de Santa Catarina, receberam um “justo juízo de Deus”, não estando lá é fácil. Teologizar a partir de um lugar privilegiado é muito cômodo, mas falar da enchente com água na cintura é bem diferente.

Portanto aos que sofrem e/ou sofreram, ou até mesmo aos sensíveis ao drama humano, eis a minha frágil proposta:

1- Não organize sua vida em torno de um possível milagre.
Porque o milagre, não passa de uma possibilidade rara, portanto, improvável de acontecer.

2- Não de ouvidos aos oportunistas que prometem, ter o poder de decretar o seu milagre.
Isso é mentira. Ninguém controla Deus.
Deus pode realizar milagres, mas isso não depende de nosso desempenho.

3- Viva uma vida normal.
Soa até esquisito, mas é verdade, as igrejas estão se especializando em “espiritualizar” todo problema.
Se você quer conseguir um emprego, envie currículo, corra atrás. Quer passar no vestibular, estude. Quer receber uma cura, procure ajuda médica, faça tratamento. Quer salvar seu casamento, seja melhor esposo ou esposa.

Não caia na paranóia evangélica, não busque a Deus, para melhorar de vida. Para ter melhor sorte do que o resto dos mortais.
Ninguém tem a proteção de Deus!
Para Deus nos proteger, seria necessário nos aprisionar, tirando nossa liberdade. È como o pássaro dentro de uma gaiola, protegido, mas preso. Tire-o da gaiola, ele terá liberdade, porém correrá riscos.Viver é uma grande aventura, que custa correr riscos.

Ore, e muito. Vá para os cultos. Mas sem propósito, a não ser para adorar e celebrar o amor de Deus.
Acho ridículo, oração com propósito. Você convida uma pessoa para orar, e ela já pergunta: “Para qual propósito?”. “Uma cura, emprego ou livramento?”Pergunto: Mas porque isso? Não podemos simplesmente orar a Deus, para termos comunhão com Ele?

Termino esta postagem, com um trecho de um texto do Pr. Ed. Rene Kivitz:

“Além disso, estar sob o cuidado de um super protetor não é a razão porque acredito em Deus: de fato, abro mão de ser protegido – minha solidariedade com a raça humana não me permite esperar melhor sorte do que a das crianças abandonadas, dos enfermos crônicos, dos miseráveis e vitimados pelas atrocidades dos maus. Ou Deus protege todo mundo, ou a proteção não serve como fundamento para a crença nele.”

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.