Eu não faço a “vontade” de Deus!

Por Marcio Alves


“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21)

Faço uma afirmação que vai soar um tanto como herética e chocar algumas (muitas?) pessoas: “Eu não faço a “vontade” de Deus!”. Não, não, não! Não perdi o juízo e nem muito menos a Fé! Estou bem consciente nesta minha afirmação. Aliás, tenho ciência das implicações.

Bem, permita-me, construir minha linha de raciocínio:

Entre os evangélicos, criou e propagou-se uma mania, para não falar epidemia, de que todas as decisões a serem tomadas, precisam antes, serem consultadas através da oração a Deus. Perguntando-o, se é da vontade Dele.

Exemplo: Se o crente quer casar, e existe pretendentes, ao invés de escolher, ele ora a Deus, para que Deus decida por ele. Ou se ele quer mudar de casa para outro bairro ou estado, ele primeiro ora à Deus, para ver se é da vontade de Deus.

Algum tempo atrás, um amigo meu, crente há muito tempo, tinha comprado um carro, e para variar, o carro vivia com problemas, ele disse-me que estava “pagando o preço” pela desobediência, porque ele não tinha, antes de comprar o carro, orado à Deus, para ver se era da vontade ou pelo menos tinha a permissão Dele.

Então, se pra muitos crentes, fazer a vontade de Deus, se resume a orar à Deus para tomar qualquer decisão, então com toda certeza: “Eu não faço a vontade de Deus”.

Na verdade, o que as pessoas (in) conscientemente querem, ao orarem pra Deus antes de tomar qualquer atitude, é que Ele decida por elas.

Primeiro que, Deus decidindo por elas a chance de errarem é zero. Ou seja, as pessoas querem se antecipar e prevenir qualquer possibilidade de erro ou acidente.

Segundo que, ao orarem, e Deus supostamente tomar a decisão, elas ficam isentos de qualquer responsabilidade. Porque se der errado, foi Deus quem quis assim, e afinal de contas - elas argumentam - quem sou eu para ir contra a decisão de Deus.

Ou seja, o crente não quer amadurecer na fé, não quer deixar de ser criança para se tornar adulto no entendimento, tomando as decisões necessárias que competem a nós.

Ouso, contra-argumentar que:

Primeiro: Mesmo orando, o crente toma decisões erradas, e a bíblia diz que a vontade de Deus ela é boa, agradável e perfeita. (Romanos 12:2). Não adianta vir com aquele papo de que Deus decidiu assim, deve ser porque é o melhor para mim, mesmo não compreendendo nada agora, mas no céu Deus vai me mostrar que tinha algo bom nisso tudo.

Será que esse determinismo é verdade? Será que Deus decidiu muitas coisas ruins, mas no final, vai revelar que era bom? Quando uma criança morre, vale aquele chavão de que, não devemos chorar por que Deus sabe o que faz?

Meus questionamentos têm a intenção de levar você a pensar.

Mas em segundo lugar, se Deus realmente decide até que carro devemos comprar, a casa onde vamos morar e a pessoa com quem vamos nos casar, então não há livre-arbítrio, e nós não passamos de meros fantoches nas mãos de Deus. Sabe aquelas frases de que: “Deus escreve certo por linhas tortas”, “que ele tem um plano pra cada pessoa”, “que ele dá o frio conforme o cobertor”, “Deus tem uma pessoa certa para cada um” – são frases de um determinismo fatalista.

Não, não acredito e nem aceito que Deus escreveu os roteiros e nós somos atores em uma história já pronta e pré-determinada. Antes, acredito que Deus é nosso parceiro, e que nossa história pode ser mudada por nós. Deus não nos fez para sermos assim, podemos e devemos construir a nossa história. Não aceitemos a idéia de destino traçado

Mas uma pergunta ainda faltou ser respondida, já que Jesus disse, os que vão entrar no céu, são aqueles que fazem a vontade de Deus. Então, o que é fazer a vontade de Deus?

Em síntese, fazer a vontade de Deus é: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:8).

Perceba que a vontade de Deus está relacionada com a moral e não com escolhas que pertencem a nós!

Nós devemos escolher com quem casar, o emprego que queremos trabalhar, o lugar onde vamos morar e o carro que vamos andar.

Nisto tudo, o que Deus pede á nós, é que sejamos íntegros e fiéis a Ele.

Dentro dessa lógica, para Deus, não importa se você vai casar com A ou B, o importante mesmo é ser fiel no seu casamento. Ou até mesmo, se vai trabalhar no emprego A ou B, se vai morar no Japão ou na China, contudo que seja íntegro em qualquer lugar.

Um clássico exemplo é o de Adão e Eva. De todas as árvores que tinham no jardim, Deus só pediu que eles não comessem o fruto do conhecimento do bem e do mal. O restante estava liberado. Eles não ficaram perguntando a toda hora, em todo momento, se podiam pegar da fruta A ou B.

“E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:16-17).

Mas não, não queremos decidir, pra não termos que assumirmos a responsabilidade, preferimos jogar para as “costas largas” de Deus as nossas escolhas.

Urge que os evangélicos (re) aprendam a viver, e viver é correr riscos. É tomar decisões, algumas certas, outras erradas.

Somos seres semelhantes a Deus, isto é, somos seres moralmente livres e não cachorrinhos presos em coleiras.

Deus não nos colocou em bolhas de aço ou dentro de gaiolas, não somos intocáveis e nem perfeitos. Isto é... Somos seres humanos!

Você pode mudar o seu destino, a sua história é como um diário, em que todos os dias você a escreve! E Deus onde é que fica nessa história? Não fica manipulando e nem ausente, Ele está ao nosso lado!

Porque Dele e por Ele, e para Ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém


Fonte: Um Outro Evangelho