Cristianismo + Constantinianismo = a necessidade de Desconstrução

Por  Jéter Eugenio

Há muito tempo venho me perguntando sobre o que anda acontecendo com a religião cristã e o quanto temos, de fato, daquilo que Jesus disse que deveríamos possuir, ou seja, um amor profundamente devotado para com a vida, que nos impulsionasse a uma ação sem complicações teológico/filosóficas que mais engessam do que auxiliam na caminhada em direção a Deus, e, a resposta que me vem à mente causa pulsões que latejam a ponto de muitas vezes tirarem o sono, pois, percebo a tamanha lacuna entre os ensinos do Mestre de Nazaré e nossa forma de ser, de responder, enfim, de existir.

É ai que a consciência diz: “Ei, Jétão, não tome a forma que diante de ti está posta! (ROM. 12: 02), pois, todas essas idiossincrasias, comuns às igrejas / templo, (instituições) fizeram-nas parar de caminhar rumo à maturidade em Cristo colocando-as na fixidez de suas estruturas mórbidas e alienantes, que nos dizem o quanto estamos desorientados em meio a tantas tramas religiosas com seus respectivos líderes os mais variados, sem nos darmos conta de que pra cada templo cheio, a um número, comparadamente falando, duas vezes maior do lado de fora composto de gente que se perdeu, desorientada e sem ter pra onde ir ou voltar, pois, a opressão e a lavagem cerebral em tais lugares é escabrosa.  

Mas quando perdemos o controle? Por que nos afastamos tanto da simplicidade do Evangelho? Quem foi ou foram os responsáveis? Onde foi que erramos?

A essas questões segue-me o raciocínio de que toda essa iniqüidade, nas igrejas, desde a muito se fixou na linearidade do tempo, num mundo onde Constantino, general romano do inicio do IV sec., teve a “genial” idéia de fazer simbiose de seu exército com os seguidores de uma “seita” de “mistérios” (assim era vista a reunião dos adoradores de Cristo) cuja fé era depositada em um homem que havia vivido no começo do sec. na palestina, cujo nome era Jesus Cristo, e, que, por sinal, era uma crença muito mal vista por grande parte do povo de Roma, além de ter sido, também, alvo de perseguições as mais variadas por parte de diversos imperadores nos três primeiros séculos, mas que agora havia se tornado em uma considerável faceta do império e que veio a cair como uma luva pra que a decisão final do pretenso imperador agora se concretizasse.

A ele, Constantino, coube a sagacidade de fazer-se cristão, e, assim, motivar as fileiras de soldados, que em sua maioria já eram simpatizantes de tal fé, e, naquele momento a suigênere estratégia na luta contra seu inimigo e cunhado Maxêncio, tornou-o então, o primeiro imperador cristão da história (uma conversão até hoje questionada), façanha que lhe trouxe sobre a ponte do rio Pilvio em 12 de Outubro de 312 d. C uma vitoria que seria registrada nos anais da historiografia bélica.

Até esse momento, tudo era muito simples, pois, o Mestre da Galiléia havia ensinado seus “meninos apóstolos” ha como viver cada dia sem serem neuroticamente afetados pela avalanche de formatos que a vida nos apresenta a todo instante, porém, a partir do dia em que os perseguidos passaram a ser tolerados e depois em 360 d. C. gente da religião dominante do mundo, então tudo passou a seguir um fluxo malévolo e asfixiante.

Desde aquele histórico momento os ensinos simples de Jesus foram teologicamente dogmatizados, suprimindo assim as minorias de pensamento diferente.

Em seguida encadeou-se outra forma de fixar e controlar as pessoas quando do primeiro concilio da igreja cristã em 325 d.C., convocado e financiado por Constantino, estatizou a Igreja do Senhor em sua maneira de pensar tornando-a assim interconectada com o estado, onde o imperador era, além de líder máximo, também o sumum pontifex (supremo pontífice) daquilo a que denominamos cristianismo fundamentalista tornando-a esse bicho de sete cabeças , e, que de Cristo só possui a derivação do nome, quando na realidade deveria ser Constantinianismo, visto que, dele essa coisa é filha.

Por isso retomo a discussão que se desenvolveu a partir de argumentos sociológicos de pensadores como Immanuel Kant, Herder, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess e Heinrich Heine que concluiram sobre a subjetividade humana que “a religião, é o ópio do povo”, uma vez que produz somente um alivio momentâneo oriundo de uma experiência do já de nossas sensações míticas e místicas e não uma consciência de si que o individuo necessita alcançar no transcurso da vida, coisa possível somente quando o amor é a tônica de nossa vida.

Por isso digo sempre que Cristo não veio fundar nenhuma religião, pois, se assim o fosse, Ele estaria na categoria dos maomés aiatolás e dos profetas sensitivos das religiões deste planeta, e ainda, dos gurus fazedores de páreas que mais parecem clones do que discípulos, visto que tudo que vemos hoje, nas religiões, são homens fazedores de seus iguais, verdadeiros papagaios de pirata, quando Jesus disse “façam discípulos” e não sujeitos envelopados e reprodutores de condutas, trejeitos e que vivem enclausurados num processo ininterrupto de obstrução da individuação.     

Por tudo isso, vimos nesses mais de 2.000 anos muitas mortes, controle, repressão sexual, bajulação política, conveniências, teologias repressivas e opressoras que se avolumaram ao nível da insuportabilidade até que a erupção desse vulcão eclesiológico /fantasmagórico acabou por resultar numa tal de “reforma protestante”, e me perdoem os reformadores e os benefícios trazidos pelos mesmos, porém, a coisa ficou somente no âmbito da ré-forma, ou seja, gravitando em torno da mesma estrutura estereotipada já existente e numa caiação da alma católico-romana que serviu apenas para levar a plebe feudal ao lado esquerdista do mundo agora dividido entre católicos e protestantes sem, contudo, conduzi-las a um nível de consciência que as permitisse viver a medida da fé descomplicada por Cristo um dia anunciada.

Hoje, estamos fazendo gestão de beirada, pois, à margem do precipício vemos muitos irmãos sem perspectiva e à mercê de lideres totalitários que vivem a macunaimice de sua falta de caráter ao manipular os símplices, e, sem falar no quanto se tornaram surtados e acometidos por um transtorno megalomaníaco galopante no que tange a sugar as energias de gerações inteiras gastando milhões erigindo paredes de templos suntuosos, à européia, enquanto do lado de fora desses edifícios, milhares morrem de fome lançados aos leões do descaso, da injustiça social, ignorância e principalmente da falta de Deus.

O pior de tudo é que muitas vezes esses “excluídos” do mundo da consciência se pegam até mesmo ouvindo os sermões de muitos dos tele-evangelistas, com “unção diferenciada”, que são teologicamente bem preparados, retoricamente convincentes, porém, existencialmente sem o germe que provoca e abre comportas poderosas em Deus para a ação do Espírito Santo que convence do pecado, da justiça e do juízo como nenhum outro ente no universo pode fazer.

Depois de tal reflexão só nos resta a questão: até quando as pessoas serão assim tão “inocentes” e possuidoras de uma simplicidade quase patológica?

Por fim cristianismo + constantinianismo (que pra mim é exatamente a mesma coisa) me sugere uma desconstrução. È preciso desconstruir toda essa parafernália religiosa que tem aprisionado milhões de vidas sob sua égide controladora que faz com que os mais espertos vivam sempre usufruindo das vidas alheias a semelhança de pecuaristas (Admirável Gado Novo já cantava Zé Ramalho), e, sob pretexto de “homens de Deus, ungidos do Senhor, pastores das igrejas, bispos, apóstolos, e coisas deste tipo, compram, vendem, negociam e enriquecem enquanto multidões se agarram aos ramos à beira do rio caudaloso de uma existência menos favorecida e alienada.

Concluindo, pouco me importo com a quantidade de pessoas que irão a favor, ou não, gostar ou repudiar tal argumento. Só quero ver se ao menos é possível provocar-lhes a consciência, pois, pior que uma reação antitética, é uma não reação diante da vida que querem que vivamos em nome da manutenção de poder que uns poucos aprenderam a juntar e manter durante toda história das civilizações divididas em classes  e que tiveram na religião seu mais poderoso instrumento para alienação alheia. Só estou me posicionando, e, agora, de uma vez por todas.

É isso.