Ceia do Senhor: banquete ou aperitivo?



É curioso o fato de o Senhor Jesus não ter deixado nenhum estatuto de natureza doutrinária, administrativa ou litúrgica a seus discípulos, de ter falado muito pouco da Igreja nos Evangelhos mas, no entanto, ter deixado duas ordenanças a serem observadas pela Igreja: o batismo e a Ceia – o que nos mostra a importância destes atos proféticos para Deus: o batismo é a iniciação de nossa fé, e a Ceia é a confirmação da mesma ao longo de nossa caminhada cristã.

É unânime o entendimento da importância e do significado da Ceia na Igreja como um memorial ao sacrifício vicário de Cristo a nosso favor. Entretanto, recentemente, um diálogo tem sido encorajado entre os irmãos no tocante a três aspectos da Ceia do Senhor: o formato, o espírito e o propósito em que ela é celebrada.

Assim como outros irmãos, particularmente entendo que milênios de tradição eclesiástica alteraram o entendimento destes aspectos e o modus operandi da Igreja quanto à Ceia. Esta série de artigos visa dar a minha contribuição neste diálogo. O título e alguns termos que usarei ao longo destes artigos podem soar um pouco provocadores, mas esclareço que minha intenção não é ridicularizar, nem mesmo mudar aquilo que milhões de irmãos praticam por todo o mundo. O propósito é fazer-nos refletir sobre algumas tradições que herdamos de nossos pais na fé e esclarecer certas práticas e entendimentos diferentes que estão emergindo em nossa geração no tocante a esta importante ordenança.

A prática dos primeiros cristãos

Era comum entre os primeiros cristãos observar a Ceia em um formato de celebração, ou seja, como uma refeição literal. Além de [1] observar um memorial ao sacrifício vicário de Cristo a nosso favor, a Ceia também tinha o propósito de [2] criar um ambiente de comunhão e fraternidade entre os irmãos (2 Ped. 2:13, Jd 12) e [3] prestar solidariedade e ajuda aos irmãos mais pobres da Igreja (1 Cor. 11:17-34).

A Igreja primitiva era uma rede de cristãos que se reuniam de casa em casa para juntos adorarem o Senhor Jesus. A mesa da comunhão era o epicentro desta celebração. O “partir o pão” (Atos 2:46) era um elemento tão importante desta celebração quanto os salmos, orações e a meditação das Escrituras que hoje tanto prezamos. A Ceia era uma celebração que fazia parte do cotidiano dos discípulos; não era um ritual litúrgico realizado no primeiro domingo de cada mês e sim uma celebração em família.

Há algo na comida que estimula o espírito fraternal e, sabendo disso, não poucas vezes Jesus ministrou enquanto compartilhava uma refeição com seus discípulos. Por isso, a Ceia, apesar de não ser uma refeição como qualquer outra (pois possui um significado espiritual), nos seus primórdios era tão literal a ponto de, até mesmo, ser confundida com um banquete qualquer (esse foi juntamente o problema que estava ocorrendo em Corinto, como veremos mais adiante).

1 Cor 11:23-28 é uma das passagens mais lidas em nossas igrejas na celebração da Ceia do Senhor. Poucos atentam, porém, para o fato de, em 1 Cor 11, Paulo usar a palavra grega δεῖπνον (deipnon) para se referir à Ceia. Δεῖπνον se refere à PRINCIPAL refeição do dia entre os gregos e romanos de seu tempo (normalmente no final da tarde ou no começo da noite).1 Ou seja, ao ensinar sobre a Ceia, Paulo tinha em mente um banquete que não somente era literal, mas era também SUBSTANCIAL.

A propósito, as admoestações de Paulo contra a comilança e embriaguez dos coríntios não fariam o menor sentido se os primeiros cristãos celebrassem a “ceia tradicional” com elementos simbólicos atualmente realizada em nossas Igrejas.

O problema de Corinto

O episódio em Corinto merece nossa atenção devido a má interpretação da proposta de Paulo para a solução dos problemas que estavam ocorrendo na celebração da Ceia naquela igreja.

Não poucos irmãos entre nós (até mesmo na Igreja nos lares) entendem as admoestações de Paulo aos corintios (para que os irmãos mais abastados “comessem em casa”) como um mandamento para que a Ceia fosse realizada como um evento distinto e separado do farto banquete que mais tarde seria conhecido entre os discípulos como “Festa Ágape” (Jd. 12). Mas esta é uma má interpretação das instruções do apóstolo.

Ao lermos 1 Cor 11:17-34 com atenção, entenderemos que os mais abastados estavam trazendo a comida e comendo a sua refeição individualmente, sem se preocuparem com os irmãos mais pobres da Igreja, envergonhando assim “os que nada têm” que normalmente chegavam de mãos vazias ao evento e acabavam ficavando sem comer (v. 22). As pessoas somente “enchiam a pança” sem se preocupar com os demais membros do Corpo, esquecendo-se de consagrar o pão e o vinho em conjunto com TODOS os membros do Corpo Local. A Ceia deixava então de ser a celebração do Corpo de Cristo para tornar-se uma mera comilança egoísta.

Paulo não mandou ninguém comer em casa porque pensava que a Ceia era algo “demasiadamente sagrado” para ser celebrada durante uma refeição normal. A repreensão de Paulo não se deu por eles estarem “profanando” a Ceia pela “falta de reverência” ao literalmente festejá-la com fartura de alimentos. Paulo repreendeu os corintios por estarem comendo fora do espírito da comunhão, pelas dissensões que havia na Igreja (v. 18) e porque cada um estava fazendo “a sua própria ceia” de maneira egoísta (v.21). A solução proposta por Paulo não foi uma “ceia simbólica”, e sim que “se você não consegue se controlar, coma em casa, aplaque essa sua ‘fome de leão’ e abençoe o mais pobre” para que todos possam participar JUNTOS da Ceia. O apóstolo é bem claro quanto a isso quando termina o capítulo dizendo que “quando vos ajuntais PARA COMER, esperai uns pelos outros” (v. 33).

É obvio, portanto, que Paulo não aboliu a prática de compartilhar uma refeição literal durante a Ceia do Senhor em Corinto, apenas corrigiu alguns excessos que estavam ocorrendo naquela Igreja.

Conclusão

A maioria de nós vem de uma tradição católica onde o batismo por aspersão é praticado. Algumas denominações protestantes nunca aboliram esta prática herdada do catolicismo, apesar do amplo entendimento de que o batismo por imersão reflete com mais fidelidade o batismo bíblico, tanto na questão morfológica da palavra (a palavra “batismo” vem do grego βάπτω – bapto - quer dizer literalmente “imergir”)2 quanto na prática da Igreja primitiva (que batizava por imersão). Assim como a ordenança do batismo, a Ceia do Senhor também sofreu uma mutação em seu formato original.

A Ceia foi originalmente instituída pelo Senhor Jesus em um contexto de refeição literal (Lucas 22: 15-20). O Senhor consagrou o pão e, somente depois de cear (v.20), consagrou o vinho e o tomou com seus discípulos. Ele abriu a Ceia com o pão, comeu o banquete da Páscoa3 e fechou o jantar ao levantar o cálice de vinho. Anos de tradição religiosa “enxugaram” a ordenança ao minimizar ao máximo a literalidade dos elementos que a compõem: o pão foi substituído por alguns farelos e a taça de vinho por suco de uva servido em copinhos de flúor.

Obviamente esta é uma questão secundária com relação à salvação e que, pela graça de Deus, não é o formato da ordenança e sim a fé de cada um que cumpre o seu propósito principal. Entretanto, tal princípio não invalida o valor desta discussão: é fato que a ceia simbólica que atualmente celebramos em nossas igrejas foi uma adaptação pós-bíblica da tradição apostólica. Uma análise bíblica e histórica imparcial na questão da Ceia nos levará a reconhecer que a ceia literal está para o batismo por imersão assim como a ceia tradicional está para o batismo por aspersão no tocante ao seu formato.

A Ceia do Senhor não se distingue de outras refeições no seu formato, somente em seu significado. O que distingue a Ceia como um ato profético não é um ritual solene em que experimentamos alguns “aperitivos sagrados”, mas o propósito pelo qual nos reunimos: não somente para “encher a pança” (como nos adverte Paulo), mas para, em alegria, relembrar a oferta vicária feita em nosso favor à medida que confraternizamos uns com os outros.

A cirúrgica separação entre a Ceia do Senhor e o banquete promovida pela tradição eclesiástica transforma a ordenança em um ritual totalmente estranho às Escrituras e à prática dos primeiros apóstolos, desprovido totalmente de seu contexto de celebração e fraternidade. Diante de tantas descrições bíblicas da Ceia como um banquete, enxergar Pedro, João, Paulo, Silas, Timóteo e os demais discípulos comungando em torno de uma mesa cheia de “aperitivos simbólicos” é mais do que uma idéia equivocada. É algo totalmente surreal.