Jesus não nos mandou abrir igrejas



A recessão americana causou um fenômeno interessante na área em que vivo: muitos negócios estão fechando suas portas e diversas áreas comerciais estão se tornando depressivas. Em muitos salões comerciais onde antes havia restaurantes, lojas, farmácias e supermercados, hoje há o vazio da recessão. Em uma época em que o metro quadrado comercial nunca esteve tão barato aqui na Califórnia, diversas igrejas estão tentando preencher o vazio da recessão, alugando estes imóveis, para a alegria de seus proprietários. 

Este é um costume novo aqui nos EUA, trazido em grande parte pelas comunidades latinas: usar prédios comerciais como casas de adoração. Como resultado, em uma única área comercial, às vezes é possível observar uma babilônia de quatro ou cinco igrejinhas, cada qual com seu nome diferente e com meia dúzia de gente dentro. A febre imobiliária no meio evangélico é tanta que em uma determinada cidade aqui do Vale, há um projeto de lei municipal que proíbe que igrejas aluguem qualquer imóvel situado em centros comerciais.

Hoje em dia fala-se muito em “plantação de Igrejas”. Na maioria das vezes em que alguém usa esta expressão, está na verdade se referindo à abertura de mais um negócio religioso. Em outras palavras, se o cidadão tem a intenção de “plantar uma igreja” na cidade, logo começa a buscar um imóvel para alugar, um lugar onde possa encher com cadeiras, sistemas de som, um púlpito e um gasofilácio (nas igrejas mais tradicionais). A partir daí, o obreiro se mune de um microfone e começa a pregar (às vezes aos berros) na esperança de que os transeuntes decidam entrar no mais novo aprisco de tijolos da cidade, entre os diversos já existentes, às vezes no mesmo quarteirão. Seu alvo, a partir daí, é colocar o maior número possível de pessoas dentro deste cubículo, como sardinhas enlatadas, para assim poderem mudar a um lugar maior. Em termos de igreja, isso é o que se chama de progresso: quanto maior o aperto, maior a benção…

Não julgo tais pessoas por entender que a maioria dos obreiros que assim fazem trabalham para o Senhor de coração, somente reproduzindo aquilo que viu seus pais na fé fazerem. Mas sinto que muitas vezes queremos começar a construir a Casa de Deus pelo telhado, ao invés do alicerce.

Jesus chamou um pequeno grupo de homens para caminharem com ele. Sua prioridade era edificar na vida destes discípulos para que eles fossem suas testemunhas. Se lermos as Escrituras com atenção, veremos que Jesus muitas vezes despedia as multidões para poder estar a sós com estes homens. Muito daquilo que Cristo fazia entre as multidões visava, na verdade, ensinar os seus discípulos a ministrar de forma prática, e não necessariamente atrair multidões atrás de si e fundar uma mega-igreja no Oriente Médio. Ironicamente, hoje em dia, fazemos justamente o contrário: sonhamos com as multidões e negligenciamos nossos discípulos em um nível mais pessoal. A grandeza de um homem de Deus se mede, hoje em dia, pelo tamanho da multidão à qual ele ministra, não pelos relacionamentos profundos que ele nutre com seus discípulos e pelos sólidos alicerces que lança em suas vidas. Queremos impactar a cidade ou o país a partir do púlpito, mas não sabemos cultivar “a intimidade do cenáculo” com alguns poucos. Adoramos trovejar às massas sem rosto e sem nome, mas fugimos do indivíduo e de suas esquisitices pessoais (afinal, estamos ocupados com coisas mais importantes). Compramos horários de rádio e TV, queremos que o mundo ouça nossa mensagem, mas não temos ouvidos para escutar alguns poucos ao nosso redor. Muitos de nós nos tornamos girafas pescoçudas que não sabem comer das pastagens mais baixas, somente das árvores mais altas. Queremos fazer coisas grandes para Deus sem, no entanto, cuidar das pequenas coisas que dão forma e característica a uma verdadeira Igreja. Deixamos de ser pastores, para nos tornarmos servidores de mesa, administradores de mais um feudo religioso, entre tantos existentes na cidade.

Tenho a impressão que muito daquilo que alguns chamam de “ministério” acabou se tornando church business. Nos tornamos demasiadamente sofisticados e pouco pessoais.

 

Igrejas Boteco 

 

Em nenhum momento Jesus Cristo nos diz: “abram igrejas em todas as nações” ou “expandam sua franquia religiosa”. Jesus não nos manda “abrir igrejas”, ele nos manda fazer discípulos. Ele nos manda seguir seu exemplo de lançar o sólido Fundamento na vida de alguns para que estes edifiquem na vida de outros e, assim, o Reino tenha um crescimento exponencial. Toda estrutura deve surgir a partir daí.


Assim como o calor emana do fogo e o casulo toma a forma da vida que o ocupa, a estrutura de uma Igreja, seja ela qual for, deve sempre ser resultante da vida da mesma, e jamais o contrário. Igreja não é boteco, destes que você abre as portas em alguma esquina e espera as pessoas chegarem. Isso é tão imprudente quanto o agricultor que constrói o celeiro e espera que a colheita venha até ele para enchê-lo. E, à exemplo deste agricultor incauto, temos gasto mais tempo enfeitando o celeiro do que trabalhando a terra da colheita.

Como disse um pensador, como pastores aprenderemos mais ao lado de um agricultor do que andando com executivos. A Igreja é uma entidade orgânica, não é uma empresa. A propósito, é devido a uma visão empresarial megalomaniaca de ministério que muitos pastores se portam como meninos crescidos, adolescentes calvos que ficam disputando entre si para ver quem tem o maior p…1

 

Imagem Distorcida, Prática Distorcida


No ano passado fui convidado a compartilhar a respeito da Igreja nas casas em uma conferência de líderes em uma igreja aqui na região. 
 
Como os mais desinformados ainda confundem Igreja nas casas (estilo de vida coletivo) com G12 (método de crescimento),2 algumas pessoas tinham uma idéia equivocada daquilo que eu iria compartilhar. Antes de fazer ou falar qualquer coisa, pedi às pessoas que fechassem seus olhos e criassem uma imagem mental de uma palavra que eu lhes diria. Eu lhes disse a palavra “IGREJA”. Não é surpresa nenhuma que mais de 90% das pessoas enxergaram um edifício, ou “templo”.

Algumas poucas enxergaram pessoas com as mãos levantadas, adorando em um culto. Somente uma mulher disse que enxergou pessoas que eram como uma família. A partir daí, alguns perceberam que eu não estava ali para falar de G12.

A verdade é que a Igreja não é um prédio, não é um evento. É uma família. Isso é importante porque se sua visão de Igreja estiver distorcida, igualmente será sua prática de Igreja. 

Quando desenvolvemos a mentalidade de “igreja-boteco”, a primeira imagem mental que temos de “Igreja” é a de um salão cheio de pessoas. Como resultado, a maior parte de nossos recursos – a saber: tempo, dinheiro e pessoas – serão empregados na realização de programas religiosos. Em contrapartida, a imagem que a Bíblia nos dá de Ekklesia é a de uma família, onde as pessoas exercem juntas a prática contemplativa de buscar a Deus, mas também a prática de buscar Cristo na pessoa de seu irmão, fora das citadelas religiosas. Assim, gastando tempo uns com os outros, partem o pão entre si, compartilham suas cargas e seus bens em simplicidade de coração e de ortodoxia.

 

Igrejas Transgênicas


Seguramente, Deus quer que sua Igreja cresça de forma exponencial. Mas com excessão de avivamentos que produzem crescimento rápido e instantâneo (como o que vemos em Atos 2), o crescimento da Igreja é gradual e a seu próprio tempo. E, como regra, há dois tipos de crescimento: o crescimento orgânico, proporcionado por juntas e medulas bem conectadas (Ef. 2:21-22), e o crescimento transgênico, proporcionado por elementos produzidos e manipulados pelo homem. Sabemos que uma igreja é transgênica quando seu crescimento se dá  em torno dos elementos da estrutura religiosa (boa pregação, boas bandas de louvor, bonitas catedrais, etc), mas seus membros estão totalmente desconectados uns dos outros.

Igrejas transgênicas são como grandes restaurantes em que as pessoas compartilham seu espaço com uma multidão, mas não se relacionam com aqueles que ocupam as mesas ao lado, e muito menos com aqueles que as servem. Comem sua “comida espiritual” e voltam para sua casa, com seus pecados habituais e seus demônios de estimação.

Na igreja transgênica, as pessoas vão para receber uma massagem intelectual por meio de uma boa pregação e animar-se ao som de uma excelente banda de louvor, mas sua espiritualidade é uma montanha russa que sobrevive de pregação em pregação, de apelo em apelo, porque tais são odres velhos que arrebentam toda vez que um novo vinho é derramado sobre elas. São como ovelhas sem pastor porque desenvolveram uma mentalidade distorcida de Igreja-restaurante.

 

Conclusão


Muitos de nós fomos traídos por um sistema que valoriza a lavagem cerebral homilética em detrimendo dos relacionamentos sólidos – um ciclo vicioso de eventos religiosos que muitas vezes ocupa o tempo destinado à intimidade do cenáculo. A diferença entre um pastor de ovelhas e um sofista evangélico é que, apesar de ambos pregarem, um deles se preocupa em unir as ovelhas para que formem um rebanho, enquanto o outro se contenta em simplesmente cativar uma multidão de estranhos por meio da oratória.

Jesus não nos mandou “abrir igrejas”. Ele nos mandou fazer discípulos. Que troquemos a imagem do “templo” cheio de pessoas pela imagem da mesa de uma refeição em família, em simplicidade, comunhão e com muito Pão & Vinho.

Nota

[1] Prédios + pessoas.[2] A única semelhança entre a Igreja nos lares e o G12 é o fato de ambos se reunirem nas casas. Mas assim como o fato de eu frequentar o fórum não me tornar um advogado, ou o fato de eu passar meu tempo em um hospital não me tornar um médico, o fato de o G12 reunir-se nas casas não o torna equivalente à Igreja nos lares. O G12 trabalha com uma rígida estrutura movida à métodos, e a Igreja nos lares opera na informalidade e flexibilidade dos relacionamentos pessoais. Há uma enorme diferença de filosofia de trabalho ministerial entre os dois


Fonte: Pão & Vinho