Que tipo de ceia estamos celebrando?





Fico perplexo como que muitos cristãos, ao lerem a passagem bíblica de 1Co 11.27-30, ainda propagam a ideia absurda de que Deus costuma castigar pessoas com doenças e mortes pelo fato de elas participarem da celebração da Ceia do Senhor tendo ainda "falhas espirituais".

De fato, o mal interpretado texto da mencionada carta de Paulo assim nos diz:


"(...)27 Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. 28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; 29 pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. 30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem (...)"
(tradução e versão de Almeida Revista e Atualizada - ARA)

Fiz questão de colocar reticências na citação bíblica justamente para chamar a atenção sobre a falta de visão contextual por parte daqueles que tentam impor seus acréscimos doutrinários às Escrituras fim de justificarem a exclusão de pessoas por seus critérios moralistas desta importante celebração da Igreja.


Em primeiro lugar, Paulo não dá autoridade a nenhum líder eclesiástico para decidir sobre quem deve ou não participar da Ceia. A mensagem transcrita é bem clara ao dizer que cabe ao homem praticar um auto-exame de si mesmo para então comer do pão e beber do cálice (verso 28).


Vale ressaltar que ninguém teria autoridade em Cristo para definir quem pode ou quem não pode ter participação na Ceia do Senhor. Nem mesmo o próprio apóstolo Paulo, caso ele assim houvesse procedido. Pois como um enviado de Jesus, cabia ao apóstolo transmitir e ensinar a ordem dada por Jesus, sem fazer nenhum tipo de adição pessoal no lugar do mandamento.


Examinando a passagem por inteiro, compreendo que os versos citados precisam ser lidos e interpretados em conjunto com o restante da passagem da epístola que vai do versículo 17 ao 34 do capítulo 11. Isto porque, segundo a repreensão de Paulo, os coríntios estavam tomando cada um "a sua própria ceia" (v. 21), em que os ricos se banqueteavam enquanto os pobres sofriam necessidades, conduta que afronta a unidade que deveria haver entre o povo de Deus.


Assim, ao invés de celebrarem a Ceia do Senhor, os coríntios estavam se ajuntando para festejar sem a observância do amor de Cristo, trazendo para dentro da reunião as divisões classistas existentes no meio social já que formavam grupos separados. Com isto, eles estavam perpetuando dentro da Igreja a desigualdade entre ricos e pobres que já existia no mundo de um modo até mais acentuado que nos nossos dias onde a escravidão encontra-se juridicamente abolida.


Afim de que os destinatários de sua carta entendessem qual é o significado da celebração da Ceia, Paulo repete a tradição apostólica sobre a instituição do memorial de Cristo, quando Jesus simbolicamente afirmou "isto é o meu corpo, que é dado por vós". Ou seja, Paulo estava chamando a atenção dos coríntios acerca de coisas que muitos deles andavam ignorando e, obviamente, estavam deixando de participar da verdadeira Ceia.


Evidente que participar exteriormente do memorial de Cristo sem estar unido em amor com os demais irmãos equivale a se colocar na mesma categoria dos que mataram a Jesus, Obviamente que não pelo simples fato de comer do pão ou de beber do cálice, mas sim pela conduta egoísta e segregadora da pessoa que continua incompreensível quanto às necessidades de seu próximo, deixando que outros membros da família de Deus passem fome enquanto ela se regala com seus prazeres pessoais.


Ora, agir desta maneira é viver debaixo do engano religioso. É iludir a si mesmo como se estivesse participando da Ceia do Senhor, como na verdade tal pessoa está celebrando sua própria refeição - o banquete símbolo da destruição ou condenação. Logo o "castigo", ou melhor, a consequência de uma vida individualista com desamor, repercute como morte e adoecimento da alma. Porque é como se Cristo estivesse sendo novamente assassinado através do desprezo pela necessidade do irmão mais pobre.


Porém, não é muito diferente da conduta dos coríntios o que muitas "igrejas" fazem quando resolvem restringir a participação de pessoas na Ceia conforme os critérios moralistas de seus líderes. Quando um "pastor" impede que um homossexual ou um viciado em drogas celebre o memorial de Cristo, ele está limitando o banquete aos que têm alguma moeda moral, deixando de fora os que seriam mais necessitados espiritualmente. E, com isto, um religioso acaba agindo como réu do corpo e do sangue do Senhor porque está excluindo da comunhão no corpo um ser pelo qual Jesus morreu.


O "comer indignamente" em nada tem a ver com o fato de alguém participar da Ceia do Senhor tendo ainda falhas de caráter e de comportamento, coisas que todos nós teremos todos os dias durante a nossa peregrinação na Terra. Qualquer discípulo de Jesus, à semelhança dos doze apóstolos na primeira Ceia, deve ter a consciência de que suas fraquezas pessoais vão continuar se manifestando mesmo depois de inúmeras celebrações. Então, o que deve ser refletido na ocasião do memorial de Cristo é justamente compreendermos a nossa condição de pecador e o significado da mensagem libertador do sacrifício na cruz, na qual a minha carne também tem que ser pendurada.


Logicamente que, durante 1900 anos, não interessou às autoridades eclesiásticas trazer o verdadeiro esclarecimento sobre o sentido da Ceia. A instituição da eucaristia passou a ser utilizada como um instrumento para se incutir culpa nas pessoas por suas faltas cometidas. O "pastor" arroga-se no direito de indicar aquilo que, na sua visão moral, seria certo e errado, sem que o próprio participante do evento adquira consciência própria cerca de suas ações. E quase sempre as reprovações do líder religioso estão voltadas para falsos ideais de pureza que, na prática, são mecanismos repugnantes de repressão da sexualidade humana e uma distorção da ideia sobre santidade já que é muito fácil alguém condenar no púlpito coisas como o sexo fora do casamento formal, o fumo ou a ingestão de bebidas alcoólicas, mas ignorar a desigualdade social manifestada inúmeras vezes dentro da própria Igreja.


Nos dias de hoje, quantos empregadores que se dizem cristãos e dão boas ofertas em suas igrejas não exploram seus empregados e conduzem seus negócios sem ética?


Que tipo de ceia é esta em que, apesar de todos comerem juntos os elementos simbólicos do pão e do cálice durante a celebração na igreja, ninguém mais é capaz de pensar no bem estar do seu próximo e cada um só se preocupa com a satisfação das próprias necessidades?


Acontece que não posso deixar de confessar este pecado coletivo dos cristãos nos tempos atuais. Pois a omissão da Igreja tem a condenado junto com os malfeitores que crucificaram a Jesus. Com isto, o cristianismo come e bebe para a sua própria perdição, obscurecendo o seu entendimento acerca do que é sermos um só povo e da vida baseada no amor, onde não deve mais haver diferenças sociais no meio da assembléia de Cristo.


Oro para que a Igreja tome consciência do seu papel social e que se liberte dos moralismos hipócritas, passando a incluir na Ceia do Senhor a todos, pois foi por todos que Cristo morreu na cruz dando o seu corpo e derramando o seu precioso sangue.


Que Deus abra os nossos olhos!

 
OBS : A imagem ilustrativa deste artigo refere-se ao célebre quadro A Última Ceia (1495-1497) do gênio renascentista Leonardo da Vinci (1452–1519) e se encontra no convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. A obra baseia-se em João 13.21, quando Jesus anuncia aos doze apóstolos que um dentre eles iria traí-lo. No entanto, deve-se considerar que a pintura seria uma versão europeirizada da cena, visto que, nos tempos de Jesus, como ainda é costume no Oriente Médio, a refeição era servida no chão, não sobre um móvel com "pés" onde os discípulos pudessem se sentar em cadeiras.